Por trás do verso

Bem-vindos(as),

Nesta seção, denominada Por trás do verso, irei conversar sobre as principais inspirações que me levaram a escrever cada um dos textos que publiquei neste espaço. 

Meu objetivo não é explicar cada verso do poema - até porque, eu acredito que poemas não podem ser explicados; eles devem ser sentidos. Muitas coisas que eu escrevi aqui podem ser interpretadas de diferentes maneiras e encaixadas em diferentes situações. 

Contudo, eu gostaria de deixar registrado as motivações, os sentimentos, as músicas, os filmes e os gatilhos que me levaram a depositar aqui tantos versos.

Obrigada! 

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Por trás do verso | Episódio VIII: (poema sem título)

Não existe um protocolo ou regra para dar um título a um poema - pelo menos não que eu conheça. Os meus poemas possuem títulos provisórios no início da escrita, mas raramente o título do rascunho se torna oficial. Eu gosto de pensar que meus poemas se dão nomes sozinhos. Em algum momento da escrita, o nome do poema nasce de parto natural. Eu não preciso pensar muito: de repente é como se eu sempre conhecesse aquele poema pelo nome. 

Alguns dos meus poemas possuem títulos bem óbvios, sendo somente uma palavra ou frase que já está contida no texto. Isso acontece em "Traças", "Meus Sonhos Não São Raros", "Quando eu era só uma onda", "Quase apogeu", entre outros. Esses títulos são recortes que compõe a escrita do poema e podem ser facilmente deduzidos. Na minha concepção, nenhum outro título acolheria melhor o sentimento central de cada um desses textos. 

No entanto, existem alguns poemas cujos nomes não se revelam muito facilmente, sendo necessário um batismo quase metafísico. Isso acontece em "tamagotchi", "Nebulosa", "Dívida Vitalícia", "persona non grata" e "grande!". Essas palavras não estão contidas no texto, mas representam algo que está intimamente ligado a ele. Nomear esses poemas também aconteceu de forma espontânea, como se eles mesmos se nomeassem. Só foi preciso expandir um pouco a imaginação. Inclusive, eu ainda não fiz um episódio para o poema "grande!" e sinto que preciso falar dele. É o título de poema mais interessante que eu já declarei porque ele interage intimamente com o texto, evocando uma ação extra do eu-lírico e, portanto, requer uma breve reflexão do leitor. Talvez "grande!" seja a próxima vítima deste quadro!

Mas enfim... Por que do nada eu estou falando sobre os títulos dos meus poemas? Bom, acho que é porque eu escrevi um poema órfão de nome! Pois é. Nunca achei que isso pudesse acontecer. Ora, mas basta você dar um nome para ele! - o leitor deve estar se perguntando. Mas não é tão simples. Como eu disse, os meus poemas se nomeiam sozinhos. Este poema que vos é apresentado no link (poema sem título) simplesmente não se deu nome! E olha... eu tentei. Li e reli as linhas, tentei buscar além do texto... Necas! Nada do nome surgir. Por fim, o texto ficou pronto, depois de alguns rearranjos, senti que expressei tudo o que queria e, ainda assim, não tinha o nome. Quando, de repente, eu li a última frase do poema e me dei conta de que, de fato, esse trabalho não poderia ter um nome de verdade... Não quando ele é súplica a mim mesma e implora para que eu continue escrevendo esses poemas, mesmo quando eu sinto a insignificância da minha existência pesar em meus ombros, mesmo quando eu me convenço de que sou uma farsa e não mereço nada de bom nesta vida, mesmo quando eu quero excluir todas as publicações desse site e me proibir de pensar em escrever outra vez. Mesmo nesses piores dias, este poema desleixado que sequer tem título me lembra que eu não preciso me cobrar tanto e que eu posso ter um hobbie e que eu não preciso me envergonhar das coisas que eu faço e que na real ninguém liga tanto assim para mim e que isso não é uma coisa ruim e que eu não preciso sentir como se eu estivesse a beira de ser desmascarada. 

Eu posso fazer o que deixa meu coração contente, ainda que eu não faça direito... mesmo que mal feito. É por isso que esse poema é um desnomeado - se é que essa palavra existe. Eu não preciso. 

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Por trás do verso | Episódio VII: Meus Sonhos Não São Raros

Prometi a mim mesma que este ano eu divulgaria os textos que eu escrevo aqui. Até agora, somente li alguns para meu amor. Fiz alguns planos, mas vacilei. Eu havia me inscrito em uma curso de Poesia e Prosa, enviei alguns trabalhos,  mas não fui selecionada. Isso soou como um aviso de que meus textos não são bons o suficiente e, portanto, eles deveriam ficar escondidos. Eu criei expectativas, e elas foram frustradas. Doeu. Fiquei sem estímulos. Ainda tenho vergonha de expor minhas palavras dessa forma. É claro que eu gostaria de publicar um livro e inventar cada vez mais histórias, mas isso parece estar tão aquém da minha realidade. Seguimos sendo um blog solitário. Não ter sido selecionada para aquele curso foi um sopro muito forte no castelo de cartas que eu estava construindo. E se tudo que eu escrever aqui não passar de lixo? Eu não estou sendo modesta ou fazendo charme. E se realmente for tudo lixo? Fui seduzida pela ideia de parar e nunca mais escrever. Mas toda vez que me sinto perdida, triste, feliz, ferida... eu só consigo escrever... E foi assim, após vinte minutos chorando, que surgiu Meus Sonhos Não São Raros. 

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Por trás do verso | Episódio VI: Jogo do Bicho

Como prometido - a literalmente ninguém - vamos falar sobre o poema (?) / conto (?)  / diálogo (?) JOGO DO BICHO.

A cara que estou fazendo agora ao escrever esta linha resume perfeitamente o que eu sinto sobre esse texto. É uma pena que vocês não podem ver, mas trata-se de uma feição que retrata uma pessoa morrendo de vergonha e de vergonha alheia (sim, são sentimentos diferentes!), mas ao mesmo tempo orgulhosa e risonha.

Eu sequer me lembro bem como Jogo do Bicho nasceu em minha cabeça. De repente, eu sabia que eu deveria escrever um poema que envolvesse algum personagem suburbano, eu queria dar um toque regional e nostálgico a um texto meu. E assim surgiu Seu Zé, a representação perfeita (pelo menos na minha cabeça) de um típico bicheiro que você encontra nas esquinas do Rio de Janeiro, lugar onde eu nasci, cresci e vivo até os dias de hoje. 

Geralmente, os bicheiros ficam alocados junto a um estabelecimento comercial. Quando eu era criança, o bicheiro mais próximo da minha casa ficava dentro de um bar/bazar. Eu costuma ir lá para comprar refrigerante e usava o troco (quando sobrava) para comprar chocolate (Batom Garoto, na época custava 50 centavos, que saudades!). Não, eu nunca joguei no bicho e, que eu saiba, minha mãe também não. Mas eu lembro vividamente de uma tarde em que, após uma soneca, eu acordei com alguns números escritos no braço. Provavelmente, resquícios de tinta de caneta de alguma atividade que eu havia feito na escola de manhã. Eu não dei a mínima importância, mas meu primo achou que fosse um sinal divino e prontamente anotou os números e começou a fazer associações com animais. Só mais tarde eu entendi que ele estava bolando um jogo. Bom, não sei se ele chegou a apostar aqueles números, mas eu achei aquilo muito curioso. 

Eu sempre achei fascinante essa mania que pessoas têm de achar que o universo tenta se comunicar com elas. As superstições são comicamente ridículas, mas têm seu charme. Eu sempre fui cética, mesmo quando eu sequer conhecia o significado desta palavra. E eu não acredito que exista uma divindade ou força cósmica dando empurrãozinhos em nossas costas em direção a algo. Mas as pessoas que costumam apostar e fazer jogos possuem suas mandigas. 

Além de bicheiro, Seu Zé era dono de cabaré, fazia exame de vista e vendia sacolé. Minha imaginação me levou a esse amontoado de ocupações que são bem aleatórias para uma só pessoa ter. Mas, na verdade, isso é bem comum. As pessoas, de fato, se viram como podem. É muito fácil encontrar por aqui casas com uma plaquinha escrito "VENDE-SE SACOLÉ DA FRUTA". Uma vez, meu irmão comprou um sacolé de cor  azul. Até hoje eu não imagino de que fruta aquilo poderia ser feito. Sobre "fazer exame de vista" bom, não era um exame de vista propriamente dito. Mas minha mãe, por muitos e muitos anos, comprava seus óculos em camelôs do bairro. O "exame de vista" consistia, basicamente, em testar todas as lentes possíveis até achar uma que ela conseguia enxergar as letras do encarte de promoções do supermercado. E, bom, sobre o cabaré... Eu morava ao lado de uma casa que literalmente fazia delivery de prostitutas. Os homens não iam até lá, as mulheres eram "entregues" a eles. Sim, isso é extremamente problemático mas todos na minha rua sabiam o que acontecia ali, embora fosse bastante discreto. Ah, a Zona Norte do Rio tem tantas, mas tantas histórias para contar. Parando para pensar agora, eu realmente aglutinei todas esses clássicas e controversas formas de comércio não regulamentadas em um só personagem: o bicheiro Seu Zé, alguém que comandava todas esses negócios no bairro do eu-lírico. 

Bom, uma vez estabelecida a atmosfera, eu comecei a me inspirar em diversas situações para desenvolver a narrativa do poema. Trata-se, então, de duas pessoas que cresceram juntas nesta cidade com todos os elementos que eu citei anteriormente. Eles tinham a mesma idade, frequentaram a mesma escola, brincavam na rua, compravam sacolés, eram melhores amigos. As pessoas da vizinha, inclusive, fofocavam por aí que eles seriam um casal no futuro. No entanto, em algum ponto da vida, o menino decidiu ir atrás de alguma oportunidade em outro lugar, expandir seus horizontes. A menina, por sua vez, nunca fez planos de sair dali. Ela gostava da única vida que ela conhecia, mas foi surpreendida pela forma abrupta com que seu amigo foi embora. 

Eu senti necessidade de inserir os diálogos no texto para complementar a história. Acho que isso deu um toque ainda mais íntimo no texto. Não é a primeira vez que eu insiro diálogos em minhas poesias, o mesmo acontece em Dívida Vitalícia, bem no final do poema. Em Jogo do Bicho, no entanto, os diálogos vão surgindo de modo a complementar os versos do eu-lírico, explanando ainda mais a situação. Tenho medo de isso causar certa confusão na cabeça das pessoas e soar meio pretensioso, mas eu realmente sinto que foi um toque a mais. Vou explicar cada um deles aqui.

1º fragmento de diálogo: Trata-se das conversas que os vizinhos do bairro puxavam com o eu-lírico, manifestando o senso comum daquela comunidade - de que tudo indicava que eles ficariam juntos. 

- [...] é que ocês viviam juntos, pra cima e pra baixo! A essa altura, achei que tavam casados! Mas deixa eu ir lá, querida, tenho que passar no mercado. Mande a ele um cherô e um forte abraço!

2º e 3º fragmento de diálogo: Ainda revirando suas lembranças, o eu lírico se lembra da primeira vez em que Seu Zé tentou aliciar o jovem casal para entrar no seu esquema de jogo.

- É fácil ganhar no jogo do bicho. A banca quase sempre ganha. Mas o povo tem seus licutichos, suas mandingas, suas manhas. 

- Tens que acreditar nos seus sonhos. Eles são mágicos. Todo sonho tem um significado. Junte isso a hora que o relógio marca assim que você acorda, e tá feito. Se não der certo, você não fez direito. Deve ter escapado um sinal aqui ou acolá. Continue a tentar. Terno, duque, quadra, quina. Eu tô sempre nessa esquina. É só jogar!

4º e 5º fragmento de diálogo: Ainda no mesmo marco temporal do diálogo anterior, o eu-lírico, irritado, desvia da conversa, alegando que só foi ali para pegar os óculos de sua mãe, ao passo que Seu Zé insiste com o garoto, uma vez que notado que ele seria uma presa mais fácil.

- Isso é só um jogo de sorte - Retruquei, mas queria mesmo ter dito "jogo de azar". - Eu só vim pegar os óculos da minha mãe. Ela tá uma semana sem enxergar.

 - Jogo de sorte só jogamos com a Morte. Cá estão os óculos dela. Ei, garoto, não escute ela! Deixe os sonhos te guiar!

6º fragmento de diálogo: O eu-lírico fica sabendo, através dos pais do garoto, que ele havia se casado. Mais um golpe em seu coração. 

- Foi uma cerimônia íntima. Nada demais. O nome dela é Cíntia, ela trata de animais. Mas não é veterinária, eu esqueci o nome do que ela faz. É Zoo-alguma-coisa-do-tipo. Eu até brinquei: “Vai dizer que cê joga no bicho?! Olha que ele vai gostar mais!

7º e último fragmento de diálogo: Uma das últimas conversas que o eu-lírico tivera com seu grande amor e amigo, antes dele partir. Aqui, promessas foram feitas apenas para serem quebrados logo adiante. 

-  Essa cidade foi meu berço, mas não será mais meu lar. São só seis horas de carro. Dá até para ver o meu rastro. Finais de semana, feriado... eu volto para cá! Você também pode me visitar. Seu telefone sempre irá tocar!

Eu acho que manter todos esses fragmentos de diálogo pode ajudar na atmosfera da narrativa, embora seja necessário um pouco de imaginação. Espero que funcione para os leitores.

O poema é uma explanação, um desabafo, uma revolta, mas sobretudo, é uma súplica. No final do texto, depois de se declarar, o eu-lírico apela para as superstição de seu amado, mesmo não acreditando nisso. Ela quase implora para que, caso ele ainda pense/sonhe com ela, que ele interprete isso como um sinal divino e volte para ela. Isso deixou meu coração completamente derretido!

Enfim, esse é um dos textos em que eu mais me diverti fazendo. Eu realmente gostaria de saber a reação das pessoas ao ler este poema. Talvez um dia...

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Por trás do verso | Episódio V: Linha, agulha, trapo e sangue

Caramba, o último Por trás do verso que eu escrevi falava sobre um poema que eu escrevi em uma hora. "Linha, agulha, trapo e sangue" levou mais de um ano. Eu abandonei a escrita desse poema por diversas vezes. As quatro primeiras estrofes surgiram em mim bem rapidamente, mas eu nunca encontrava inspiração o suficiente para terminar de escrever. 

Eu queria deixar claro a ideia de que o eu-lírico absorveu toda a negatividade da relação, até que ele se tornou tão ruim quanto a pessoa com quem ele estava se relacionando. Ao ver o estrago que causou no eu-lírico, a pessoa se envergonha e não aguenta a ideia de que o eu-lírico se tornou um espelho que reflete toda a podridão de sua alma. 

Isso acontece muito, certo? Nós somos esponjas. Quando somos bons ouvinte até demais, quando somos manipulados, quando deixamos que nos ofendam sem nos defender... Vamos perdendo um pouco de nós e guardando um pouco deles. 

Teus segredos enterrados 

Nos poros dilatados 

Da minha pele. 


Meus nervos pinçados 

Como fios entrelaçados 

De uma marionete. 


Tuas ofensas indelicadas 

Friamente disparadas 

À queima roupa. 


Réplicas nunca ditas 

Cuidadosamente retidas 

Afogadas no céu da minha boca. 


Foi muito difícil manter este poema em estrofes assim. Eu gosto de escrever BASTANTE e até cheguei a desenvolver uma "versão estendida", com essas rimas em frases mais elaboradas. Mas achei que seria legal testar algo diferente. Depois de "Jogo do Bicho" preciso poupar palavras e diálogos (Inclusive, ainda não falei sobre "Jogo do Bicho" aqui... Pode ser o próximo episódio!).

E o título deste poema, hein!? Linha, agulha trapo e sangue!!! É uma síntese de como a pessoa remendou as coisas ruins dela no eu-lírico. Achei bizarro? Sim. Mas até que curti. Essas palavras simplesmente saltaram do texto enquanto eu finaliza a escrita. No final das contas, o eu lírico virou um trapo, com a podridão costurada com linha e agulha, às custas de muito sangue. Explicando assim fica feio, mas na minha cabeça é legal! Por muito tempo, este poema se chamou somente "Poros" enquanto ele apodrecia nos meus Rascunhos.

Inclusive, vou deixar aqui o nome de alguns poemas que estão nos meus rascunhos e que ainda devem demorar um pouco para ver a luz do dia. Vai ser legal lembrar desses nomes no futuro! Segue a lista de poemas com títulos provisórios: Vitrais, Bissexto, Clavícula, Faculdade, Lua, Mormaço, Colina, Leve Garoa, kkkkk e 24 de dezembro. Provavelmente, muitos vão mudar de nome ainda. Mas dessa forma eu consigo me achar. 

Voltando a "Linhas, agulhas, trapo e sangue"... 

Coisas que inspiraram este poema: 

Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você. -  Friedrich Nietzsche em Além do Bem e do Mal. 

E, é claro... Não vai ser a primeira nem a última vez que cito ela aqui... Fiona Apple com a música Regret, que é basicamente uma versão muito mais poderosa de toda o sentimento que eu tentei expressar com este poema.

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Por trás do verso | Episódio IV: Olhos de Maracaibo

Muitos dos poemas que eu escrevi aqui levaram meses para serem finalizados. Eu tenho diversos poemas rascunhados que eu não faço ideia de quando (ou se) ficarão prontos. Mas eu escrevi "Olhos de Maracaibo" em uma hora. Os versos pareceram ter caído do céu junto com a chuva torrencial que me trouxe a inspiração de escrevê-los. Naquela noite, raios, relâmpagos e trovões tomaram conta da cidade.

E como TUDO me inspira a escrever, logo comecei a pensar em analogias a esta fascinante força da natureza. De fato, quando eu me deparo com um relâmpago, fico muito tensa nos próximos segundos, pois fico à espreita do estrondoso trovão. 

A física explica perfeitamente porque percebemos esses fenômenos em instantes diferentes, mas nada traduz o sentimento peculiar, confuso e ansioso de perceber que alguém está deixando de te amar. Bom, eu tentei descrever está sensação aqui.

De repente, até a forma com que a pessoa te olha é diferente. Um olhar que, outrora brilhava ao te ver, agora parece distante e duro, como se a pessoa lançasse relâmpagos contra você.

Seria este o primeiro sinal? Afinal, no que você está pensando? E por que você só consegue me dizer com os olhos? Eu sei o final dessa história... Depois do relâmpago sempre vem o trovão. Com esta passagem, eu quis dizer que se uma pessoa não te olha mais da mesma forma, provavelmente muito em breve ela irá te dizer algo.

Será que é só na minha cabeça que essa analogia faz sentido?

O lago de Maracaibo fica na Venezuela e foi declarado pela NASA a capital mundial dos relâmpagos. Por isso o nome. 

A arte do poema é uma figura gerada pela inteligência artificial Midjourney. 

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Por trás do verso | Episódio III: Quase apogeu & Cordial Bom dia

Não tenho muito o que falar sobre estes poemas além do fato de que eu me orgulho muito de tê-los escrito. Fruto da minha obsessão pela minha série preferida, "Quase apogeu" e "Cordial Bom Dia" nasceram depois da minha milésima vez revendo The Office. 

Em "Quase Apogeu" tentei imaginar como eram os sentimentos da Pam e do Jim antes deles ficarem juntos e resolvi mesclar tudo no texto. Dessa forma, os versos alternam entre as perspectivas de paixão secreta que cada um nutria pelo outro, mas as últimas linhas são questionamentos recíprocos. 

Você já gostou de alguém que nunca poderia ter? É uma lástima... Mas pior do que isso é ficar se questionando se a outra pessoa acha isso uma lástima também. 

O trecho "quase apogeu" se refere ao momento em que os personagens quase ficaram juntos, mas tomaram caminhos diferentes logo em seguida (...só para se encontrarem novamente mais tarde...). 

Acho que foi uma das coisas mais romanticamente tristes que já escrevi. 

Em "Cordial Bom Dia" me coloquei no lugar do Jim, mas num cenário mais dramático. Imaginei como seria se ele não fosse correspondido nem um pouco. 

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Por trás do verso | Episódio II: Toda maldita noite


"Every single night

I endure the flight

Of little wings of white-flamed

Butterflies in my brain

These ideas of mine

Percolate the mind

Trickle down the spine

Swarm the belly, swelling to a blaze

That's where the pain comes in

Like a second skeleton

Trying to fit beneath the skin

I can't fit the feelings in

Every single night's alight with my brain"

 

                                                             Every single night de Fiona Apple.

 

Fiona Apple poderia me processar por plágio por ter escrito "Toda maldita noite"? Acho que sim. Mas, em minha defesa, Fiona poderia fazer o que quisesse comigo.

Falando sério. A música "Every single nigth" ressoou nos meus ouvidos por dias inteiros durante semanas. Assim como tudo que a Apple se propõe a fazer, esta música é uma obra prima.

Às vezes, eu me arrependo por não ter dado atenção à Fiona antes, mas ao mesmo tempo sinto que a música dela chegou a mim no momento em que eu mais precisava.

Escrevi "Toda maldita noite" inspirada na canção da Fiona (isto está bem claro, não é?!). Mas, infelizmente, não posso dizer que escrevi este poema apenas como uma mera expectadora inspirada por situações alheias. Algumas das minhas noites são, de fato, difíceis.

À noite é quando eu me arrependo de míseros detalhes do meu dia, repasso diálogos e julgo cada ação que tomei como inapropriada. Tenho ansiedade e não consigo desacreditar que sempre há algo de errado. Eu não consigo deixar de lado esta sensação de que há algo errado... comigo.

"Qualquer seja o destino, eu sigo
Tendo minha mente como açoite
E chego ao ápice deste doloroso castigo
Toda maldita noite."

A música da Fiona, pelo menos, termina em tom de aceitação: "I just want to feel everything" - o que sempre me deixa em paz. "Toda maldita noite", por outro lado, é apenas uma constatação do caos que habita a mente de um ansioso todo vez que ele é deixado sozinho com seus próprios pensamentos.

Eu não elaborei tanto este poema, confesso. Não coloquei motivos, mas sim as ações. Acredito que isso pode ser uma coisa boa pois dessa forma cada um pode visualizar o próprio inferno.

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Por trás do verso | Episódio I: Cama feita para dois

Este poema é para todos aqueles que perderam um grande amor.

Uma das minhas inspirações para escrevê-lo foi a série Monk. Adrian Monk é um detetive que sofre de transtorno obsessivo compulsivo (TOC). A mente de Monk é brilhante e ele consegue resolver todos os casos pois sempre se atenta aos detalhes que passam despercebidos pela maioria das pessoas. Ele é perdidamente apaixonado por Trudy, sua esposa, com quem vive um relacionamento feliz e saudável. Contudo, Trudy é tragicamente assassinada e este se torna o único crime que Monk não consegue desvendar. Ninguém nunca respondeu pelo crime que ceifou a vida de Trudy. Monk então se afunda em uma depressão profunda. Seu TOC, que era mantido sobre controle com a presença de Trudy, passa a ser uma compulsão intensa. Por muito tempo, Monk quase não saiu de casa. A série começa com ele tentando seguir em frente e recuperar seu emprego, sendo motivado a descobrir, finalmente, quem teria tirado a vida de sua amada. 

Bom, chega de spoiler! O fato é: essa série é perfeita. O drama que Monk enfrenta é devastador. Ele sente falta da Trudy todos os dias. Ele guarda o travesseiro que ela usava em um saco plástico hermético para manter o cheiro dela - e dói quando ele diz que não sabe mais quantas "cheiradas" ele tem, pois sabe que, mesmo com o esforço de guardá-lo com cuidado, um dia o cheiro dela irá se dissipar por completo.

Este poema surgiu na minha cabeça quando eu estava revendo a série e eu me comovi novamente com a dor dele. No episódio em questão, Monk estava investigando a morte de uma mulher. Ele começou a desconfiar do marido da vítima pois ele agia de forma fria e insensível. Monk sabia como era perder a esposa, afinal. Ele percebeu que, poucos dias depois da morte da vítima, o homem já havia se livrado de todos os bens dela - roupas, sapatos, acessórios, etc. Em uma das cenas, Monk fica indignado e, ao ser questionado pelo suspeito se ele não havia se desfeito das coisas da Trudy, ele diz que não se desfez de nada, nem dos fios de cabelo da escova dela. Foi ali que este poema nasceu em mim.

"Tuas roupas eu não doei, eu não me desfiz de nenhuma linha 

Quem sabe até quando teu cheiro vai durar no travesseiro? 

Só sei que da tua escova eu não tirei  um único fio de cabelo"

Não posso deixar de dizer que a história do meu tio-avô e da minha tia me inspiraram também. Meu tio era muito querido por mim e ele faleceu depois de uma longa luta contra o câncer. Foi muito triste ver minha tia sozinha, eles eram inseparáveis. Lembro que por várias semanas após a morte dele, eu ia dormir na casa dela para que ela não dormisse sozinha (numa cama feita para dois). 

Deve ser irreparável - perder o amor de sua vida. Em Cama feita para dois, eu tentei narrar como é um único dia nessa dor. Acordar e não encontrar a pessoa que você ama, passar o dia sentindo saudade e ir dormir sabendo que amanhã passará pelo mesmo tormento. 

PS 1. Durante 8 temporadas, Monk dorme encolhido na cama, deixando o lado em que Trudy dormia intacto. No final da série, depois de todo sofrimento, dor e de finalmente encontrar as respostas que queria, ele consegue deixar o coração em paz. Em uma das últimas cenas, ele aparece deitado no meio da cama com uma expressão bem plena. Então, se você hoje se deita sozinho em uma cama feita para dois, aguente firme. Um dia você irá se sentir confortável de novo nesta mesma cama. Um dia. 

PS 2. Eu também sinto falta dele, tia. 

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