Ao crepúsculo da manhã, teu lado da cama desentenebrece
Minhas pupilas se contraem em busca da tua silhueta, mas ela não
aparece
Meu olhar se choca contra uma parede fria, o silêncio do quarto me
ensurdece
O Sol que nasce se vangloria, um dourado vil que se intumesce
Agora ele é quem ilumina o dia, com um brilho medíocre que não me aquece
Nem mesmo a explosão de cinquenta mil estrelas
Tão pouco o clarão de um milhão de fogueiras
Não há luz na natureza que pudesse ofuscar a tua
Os planetas lamentavam-se por não te ter como lua
Nada resplandecia mais forte que a aurora do teu sorriso
Nenhuma criatura desta terra era capaz de competir contigo
Pois nem mesmo a mais pura alma do paraíso equiparava-se ao teu nível
Agora minha mão desliza sob o lençol e tateia um volume morto
A seda se torna áspera diante do que era a tez do teu corpo
Meus pés tocam no chão, é como se o mundo fosse torto
O vento que adentra a janela me atinge como um soco
Grito teu nome da sacada, passo o dia todo absorto
Perambulo fraco pela casa, inteiramente oco
Sinto falta da tua graça, de ouvir teu riso frouxo
Conforme o dia escorre é dilacerante a tua ausência
E nada me socorre desta eterna convalescência
Em toda superfície que você tenha tocado
Quando eu passo, arranca-me fora um pedaço
O relógio marca as horas, mas o tempo continua estagnado
A essa hora, às 16, você já teria chegado
E eu já teria me perdido, outra vez, na imensidão do teu abraço
As tuas coisas ainda todas no lugar, de nada eu me desfaço
Teu livro está na página que deixou; na cafeteira, o último café que
passou
Teus sapatos no tapete junto à porta; nosso cão como quem pergunta
"quando ela volta?"
Teus papéis espalhados em cima da escrivaninha
Tuas roupas eu não doei, eu não me desfiz de nenhuma linha
Quem sabe até quando teu cheiro vai durar no travesseiro?
Só sei que da tua escova eu não tirei um único fio de cabelo
Todo dia é igual ao dia em que você se foi
Não existe novos caminhos, não existe vida depois
No fim do dia eu me deito sozinho
Numa cama feita para dois.
