sábado, 20 de abril de 2024

Ninguém saberá que eu estive aqui
Tal como quase ninguém sabe agora
Em algumas dezenas de anos, eu vi
Quando há muito eu terei ido embora
Meu sangue minguando nas veias de alguém
Que nunca saberá o meu nome
E apesar dos mesmos olhos castanhos
E do mesmo gosto estranho para roupas
Ninguém saberá que esse tom de vermelho 
Também adornava a minha boca.

Caminho hoje deixando pegadas quase invisíveis
Sem feitos incríveis, não terei um quadro na parede
Nenhuma praça ou avenida será em minha honra construída
Nenhuma garganta sentirá a minha sede
E embora minhas lágrimas pavimentem boa parte da cidade
Ninguém dá a mínima para as crises de meia-idade
Atormentando o coração de jovens mulheres
Quando tudo o que eu toco me fere
Tudo o que eu amo morre comigo. 

Eu não assinei grandes acordos, eu não fiz grandes amigos 
Eu vivi colecionando sonhos antigos, tão frágeis como vidro
Sem jamais ter a coragem de sonhá-los
Tampouco pude abandoná-los pelo caminho
Estilhaçados, os engoli como vinho 
Sendo mutilada de dentro para fora
Em cruéis cortes perfeitos
Eis então tudo o que me resta agora
Tudo o que eu carrego no fundo do meu peito:

A vontade de ser mais do que eu posso
                                                             A urgência de fazer o que eu gosto
                                                                                                                   Mesmo que mal feito. 

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