domingo, 15 de novembro de 2020

Remorso - Parte 1: Arame farpado

E se, em um dado instante, meu olhar pairar sobre o horizonte

E a melancolia pesar sobre meu semblante

Saberás que já estou distante

Caminhando por entre memórias amaldiçoadas 

Estas que tu acreditas estarem fadadas ao oblívio da minha mente

Torturam-me incansavelmente, trazendo-me a amarga certeza

Que em todas as vezes que tentei, eu falhei

E que eu jamais poderei me livrar de todas as mágoas que guardei

Não enquanto eu ainda mantenho vivos

Todos os monstros em que eu me tornei.

Fizestes de meu peito solo infértil onde apenas sementes podres desabrocham

Monótona como uma orquídea sem vida, raízes mortas me goram

O cerco se fecha, a batalha começa, meus demônios se afloram

E sob este olhar morno que confundes com ternura

Adormece em fogo vivo a minha mais antiga fúria

Nunca pude me livrar do dissabor que me foi dado

Carrego esta dor sozinha para te eximir do fardo

Sustento tua candura mas me desfaço em compunção

Negligente com a inocência, vivo assombrada desde estão

Tu pensas que eu me curei mas estás errado

Todas as minhas feridas foram remendadas

com arame farpado.