segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Dois Lugares

           Passei a noite inteira fitando a mancha no teto. A luz pálida da lua rasgava a escuridão, revelando aquela forma estranha acima de mim. Parecia um cérebro. O formato ovalado e irregular lembrava um cérebro; e, se eu forçasse a imaginação, podia até distinguir um cerebelo sustentando a estrutura. Era curioso notar a rachadura que a cruzava, fruto das inúmeras infiltrações, dividindo-a  bem no meio.

Exatamente como o meu próprio cérebro.

Só percebi que já era dia quando ouvi os passos de Luís. Chegando à beira da cama, ele me encarou de cima, e, com tom resignado, perguntou:

— Está naquele lugar de novo, não é?

Talvez o meu piscar lento, pesado como uma confissão, tenha sido resposta suficiente. Mas, n No fundo, ele nem precisava perguntar. O cheiro amoníaco de mijo impregnando o quarto me denunciava. Os farelos de biscoito ao lado da cama. As roupas e o lixo espalhados pelo chão. 

Sim, querido, eu estou naquele lugar de novo, pensei enquanto encarava meu reflexo no espelho, pela primeira vez em uma semana. Espremi um pouco de creme dental na boca, lustrando os dentes com a língua. Molhei minhas mãos na água gelada e umedeci o cabelo, ajeitando-o atrás da orelha. Num gesto desajeitado, borrifei um pouco do perfume importado que Luís me dera de presente. Mas era inútil. Naquele momento, eu sabia: nada melhoraria minha aparência de defunto. 

Os olhos afundados numa bolsa escura de insônia, a boca rachada, os olhos remelentos, o rosto pálido como os ossos que ouço ranger sob a força de meus dentes cerrados. Isso só melhora quando essa fase passa. Ou, como Luís costuma dizer, quando eu volto daquele lugar.

— Você não toma a porra dos seus remédios! — Ouvi ele gritando da sala.

Respirei fundo e caminhei em sua direção.

— Eu tomo, sim, Luís. Mas não posso evitar, você sabe.

— Você estava bem até, sei lá, duas semanas atrás. — Ele me lançou aquele olhar de desprezo que eu só via nesse período. — Perdemos a viagem que comprei há meses!

— Desculpe — disse, com a voz sumindo no soluço que se formava em minha garganta.

— Nem para atender o telefone dessa vez? — ele continuou, indignado. — Eu achei que você estivesse morta, caralho!

É como se eu estivesse, disse só em pensamento.

— É demais para mim, Carol. — Ele balançava a cabeça, e eu já sabia o que viria a seguir. Não seria a primeira vez. — Não posso lidar com suas merdas o tempo todo.

Nem se eu tivesse força, conseguiria segui-lo quando ele saiu batendo a porta. Talvez fosse melhor assim. Eu não tinha o menor direito de afundar as pessoas no buraco intermitente que se abria em minha vida — sem aviso prévio, sem amortecedor.

Os dias que se seguiram trouxeram consigo aquela peculiar sensação de serem sempre os mesmos. Era pura física do vazio. Uma espera sem promessa. Apenas o zumbido agudo da ausência, crescendo como um tumor nos meus ouvidos.

Muitas vezes me peguei agachada dentro do box, nua sob a água, os olhos fixos na gilete esquecida no nicho — tão pequena, sussurrando grandes promessas de alívio. Mas, desde a última vez, quando cavei mais fundo do que devia, tento me conter. Faço das mãos conchas, desvio o olhar, reúno toda a vontade que ainda me resta para não ceder à carícia da navalha.

Mas hoje eu perdi a batalha. Agarrei o cabo de plástico cor-de-rosa por impulso. Fiquei contemplando as três lâminas reluzindo, a água do chuveiro formando gotas de orvalho entre elas. Pode ter sido isso, dessa vez. Eu nunca sei exatamente o que é. Mas, só talvez, o brilho metálico da lâmina, refletido no canto dos meus olhos, me devolveu o que eu sempre perdia por aí. Me trouxe de volta daquele lugar. 

Raspei minhas pernas cabeludas, asquerosas, do tornozelo até a virilha. 

Pus-me de pé e lavei os cabelos várias vezes seguidas. Deixei a máscara de tratamento agir por três vezes o tempo recomendado no rótulo. Esfreguei, com requinte de crueldade, a bucha vegetal em cada dobra, superfície e orifício do meu corpo. Deus, como é bom tomar banho. Sai do banheiro, a toalha enrolada na cabeça. Cadê a porra do meu telefone?

— Maria, meu amor! Você pode vir aqui hoje? — Falava ao telefone com a diarista enquanto tentava encontrar uma peça de roupa decente. — Ah, não. E se eu pagar o dobro que essa mocréia te paga? Jura! U-hul! Vou deixar a chave no mesmo lugar. Te amo, Maria!

O sol queimava minha pele e parecia me empurrar para fora. Fui direto ao botequim da esquina, o melhor self-service da cidade. Sem balança! Um alpinista poderia escalar a colina de comida do meu prato. Minhas visitas deveriam ser um puta prejuízo para o Seu João, mas eu sempre deixava gorjetas generosas, talvez três vezes o valor do que comia — ou, melhor, do que mal provava. Besliquei umas batatinhas, um pedaço de carne, bebi duas ou três doses de cachaça , em dois ou três goles de uma vez, mas estava com pressa, eufórica, como se cada minuto perdido fosse um pecado.

Peguei meu carro. O vidro coberto de multas era só um mural a ser ignorado. Catei todas, atirei no chão da rua. Acelerando, ultrapassei sinais, buzinei para um velho que atravessava devagar demais para o meu gosto. O banho ajudava, mas não fazia milagres. Fui ao salão de beleza e saí de lá outra pessoa. Eu precisava estar irresistível esta noite. Tinha que reconquistar o Luís. O que, francamente, não era nada difícil. A voz aveludada ao telefone foi o bastante. Ele passaria lá em casa mais tarde. Passei no mercado, comprei duas garrafas de vinho. Uma para noite, outra para as horas que faltavam até lá. 

Tive que resolver algumas pendências também. Chamei o pessoal para sair esse final de semana  — amigos de curto prazo, é claro, já que eu nunca os mantinha por muito tempo. Respondi aos muitos e-mails de trabalho que lotaram minha caixa de entrada. Droga, teria que dormir com meu chefe de novo! 

Quando voltei para casa, que já estava limpinha e cheirosa, fiquei esperando o Luís ansiosamente. Andava pelo quarto em círculos, testava poses em frente ao espelho, destruía todo o trabalho da manicure ao arrancar unha e carne com os dentes. Quando ele chegou e me viu, esboçou o maior sorriso do mundo. Também, não era para menos: cabelos esvoaçantes, batom vermelho, cheiro de perfume caro dessa vez — e não de merda. Ele mal conseguiu terminar sua taça de vinho.

Já havia me jogado na cama, nos lençóis recém-trocados. E enquanto ele estava por cima, e eu mordiscando sua orelha, olhei para o teto e vi a mancha de novo. Dessa vez, no entanto, minha pupila dilatada pela cocaína enxergou com mais clareza. Era só uma mancha escrota e disforme. Aquela rachadura poderia se abrir por inteira, e todo o prédio cair sobre mim, eu simplesmente não me importava.

Luís estocava com mais violência agora, mas a voz foi doce ao sussurrar no meu ouvido:

— Amo quando você está aqui! Amo quando volta daquele lugar!

Ah, amor! — gemi em resposta

Como ele poderia saber? Ele me acha tão legal assim.

Mas a verdade é que, no fundo, não faz a menor diferença.

Os dois lugares são o inferno pra mim.


segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Meus sonhos, minha casa

Memórias falham.

Se desfazem.

Se despedaçam

Se partem.


Memórias são construídas.

Resignificadas. 

A maioria se perde.

Algumas são tomadas.


Mas os sonhos permanecem. 

Vivem livres após a alvorada.

Nossos sonhos são só nossos. 

E meus sonhos,  minha casa.

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Nunca pensei que escrever era tão parecido com arrancar casquinhas de uma ferida

 Às vezes, sou esmagada pela cruel convicção de que não fazer nada pelos meus sonhos é a melhor chance que eles têm de continuarem vivos.

Temo que, ao tentar realizá-los, eu os condene ao fracasso. E assim, acabo constantemente convencida a mantê-los guardados no mundo das ideias.

Sob o véu da não existência, meus sonhos permanecem intactos. Nada os fere. Mas também nada os ilumina.

Sigo à sombra de todas as coisas que só se projetam dentro de mim. Protejo-os do mundo, mas não sou capaz de me proteger deles.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Na minha cabeça

Na minha cabeça eu sou uma refém
À mercê de alguém que quer o meu pior
Na minha cabeça o caos é tão constante
E não tem um instante que eu não me sinta só
Na minha cabeça eu crio a agonia
De morrer tão vazia sem conquistar nada
Meu coração se empedra de medo
Vou contando nos dedos as horas acordada
Eu não deveria me afogar em prantos
Nem perder o encanto após um dia ruim
Eu costumava gostar mais da vida
Quando era florida; minh'alma e meu jardim
Mas essa voz agora não se cala
Tem um odor que exala, impregna dor em mim
Na minha cabeça já deu tudo errado
E sem ter começado, eu já decreto o fim.


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PS: Este texto foi escrito como parte de um exercício proposto pelo professor do módulo de Poesia e Letra de Música do meu curso de Formação de Escritores (Curso Metamorfose). O objetivo do exercício era criar uma letra a partir de uma música já existente, como forma de estudar tipos e métricas de rima. Optei pela música "Naquela Mesa", de Nelson Gonçalves , pois sempre admirei a complexidade da construção das rimas externas e internas dessa canção.

sábado, 7 de dezembro de 2024

Jogo dos Sete Erros

Desaprendi o caminho de casa, abandonei nossas ruas

 junto com as manhãs serenas, o aroma de café,

o burburinho da feira, o frescor de sacolé,

e as promessas ingênuas de que seríamos namorados.

 

Parti em busca de um mundo idealizado,

 um lugar onde coubesse essa ânsia voraz,

o desejo inquietante, o sonho audaz

de "ser alguém na vida", não a sombra dos meus pais.

 

Fugi do que éramos, buscando algo a mais,

algo cujo nome eu já não lembro,

temendo que a paz — tão teu alimento —

me aprisionasse no acalento de dias tão iguais.

 

Eu achei que não suportaria ser só aquilo,

ver o tempo escorrer por mim, tão inerte, tão aflito,

e abraçar o marasmo que em ti se aninhava.

 

Eu queria ser diferente, romper o ciclo,

ser alguém de quem eu me orgulhava,

não a eterna poeira daquelas calçadas.

 

Mas cá estou, do alto de prédios e sacadas,

lembrando de nós — um cruel castigo —

tenho a vida mais vazia, insossa e parada,

parece que o erro sempre esteve comigo.

 

Aqui, perco-me na formalidade das palavras,

esnobes estranhos se proclamam meus amigos,

mas nenhum deles conta as suas piadas;

eles não entendem os meus sonhos, não conhecem nossos risos.

 

Hoje, sou atormentado pelo que só agora eu vejo:

contigo, eu tinha tudo o que há de raro.

Mas eu cresci em guerra, lutando contra mim mesmo,

sentindo-me digno de pena, e não de ser amado.

 

Dilacerado, eu só não sabia como reagir...

cego pelo brilho de uma alma tão singela.

Eu odiava tudo em mim; enquanto você...

você me amava do jeito que eu era.

 

E, mesmo envolto em teu amor paciente,

não consegui florescer no jardim que plantavas.

Teu coração tolo tentou criar sementes

num abismo profundo onde nada vingava.

 

Era como se eu visse o paraíso de longe,

como se o brilho do Sol não me tocasse.

O amor que você me deu, tão terno, tão grande,

não conseguiu fazer com que eu me amasse.

 

Na busca insana por um senso de pertencimento,

desfiz o abraço mais puro que eu conhecia.

Nunca estive tão sem lar, tão cruento

sendo apenas ruína do que eu pretendia.

 

Agora, eu não me atrevo a voltar para casa,

não com o peso de tanta vergonha.

Mas, se eu ousasse responder tua carta,

assumiria que o bicho da saudade me mata,

e que é só contigo que minha mente sonha.

 

Logo eu, um viciado supersticioso,

tão covarde e mentiroso

sem mais fichas para apostar,

sem mais mandigas para fazer.

Sempre fui um bom perdedor

mas eu sabotei o nosso jogo

e não aprendi a te perder.


quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Meu lar é um lugar que não existe

Há uma saudade antiga dentro de mim
Um desejo forte de sentir a brisa
Vinda do coro de canções perdidas
De árvores ainda mais antigas.

Enquanto caminho por trilhas esquecidas
Com os pés pisando em falso
Seguindo o tapete de folhas caídas
Em passos lentos e descalços.

Tom que jamais vi em minha vida
Meus olhos deslumbram um verde mágico,
Soprado de memórias nunca vividas
Afoga meu pulmão num ar escasso.

E quando a noite se derrama por cima
De cada montanha no horizonte
Eu vejo o lume de uma estrela cristalina
Que só daqui não parece tão distante.

Mas, junto às margens de um lago frio,
Mergulho em meu íntimo vazio
E embora gentis sejam as águas
Sempre me vejo sendo arremessada

À mercê de imensas ondas amarelas
Vindas do folhear fugaz de um livro
Extirpada do meu mundo cripto
E de volta à realidade que me gela

Sou eu quem retorna à estante
O antagonista sempre vence
Enquanto eu cambaleio como figurante
Na única vida que me pertence.

Perdida na minha própria narrativa 
Como um rascunho numa página rasgada
Vivendo todos os finais e as perspectivas
De uma história que jamais será contada.

Aqui, ninguém me chama ou me espera
Nada é meu ou quer que eu fique
Deito à sombra desta terra
Onde o meu sonho não persiste.

Minha voz se ergue e berra
Meu coração se parte triste
Inundado de saudades
De um lugar que não existe.

sábado, 31 de agosto de 2024

Entre o hoje e o fato

Você vai fugir dos dias mais miseráveis da sua infância 
Por dias
Meses
E anos.

Vai afundar as memórias de abandono
No sepulcro mais profundo do seu coração
Enquanto afaga e esvazia de significado
Cada palavra com o peso demasiado 
De cortes afiados que tão fácil destroçaram 
O espírito que outrora deslumbrava o mundo 
E agora vive assombrado.

Você vai sucumbir ao desespero que te leva à ânsia
De proteger
A todo custo
Aquela criança.

Mas logo nota que a ferida não melhora
Você não sabe como parar o sangue que jorra
E inunda a sua alma com uma cor tão sem vida
O presente é o caminho de uma função de estado
Constante e definida pela dor do seu passado
Levada ao limite do medo de não ter um futuro
Que possa ser emprestado.

Todas as coincidências são cúmplices do destino
E nenhuma sorte se tece 
Em direção ao teu caminho.

E numa virada qualquer de esquina
A tua mente corrói e te arruína 
Te laça e crava com arame farpado
Como o empuxo forte de uma maré 
As correntes que te fazem prisioneiro 
Te arrastam outra vez ao cativeiro
Onde você primeiro perdeu a fé.

Não importa quanto tempo você tenha conquistado 
E concretado
Entre o hoje e o fato

Quando tantas partes suas são roubadas
E derramadas no chão duro de um mesmo lugar
Tua alma vira uma peneira, desgastada
Um lençol sujo, um coração cheio de buracos
Como não cair em si mesma, nesses espaços?
Como não ser arrastada de volta ao carrasco,
Reivindicando cada pedaço que ficou perdido lá?