Passei a noite inteira fitando a mancha no teto. A luz pálida da lua rasgava a escuridão, revelando aquela forma estranha acima de mim. Parecia um cérebro. O formato ovalado e irregular lembrava um cérebro; e, se eu forçasse a imaginação, podia até distinguir um cerebelo sustentando a estrutura. Era curioso notar a rachadura que a cruzava, fruto das inúmeras infiltrações, dividindo-a bem no meio.
Exatamente como o meu próprio cérebro.
Só percebi que já era dia quando ouvi os passos de Luís. Chegando à beira da cama, ele me encarou de cima, e, com tom resignado, perguntou:
— Está naquele lugar de novo, não é?
Talvez o meu piscar lento, pesado como uma confissão, tenha sido resposta suficiente. Mas, n No fundo, ele nem precisava perguntar. O cheiro amoníaco de mijo impregnando o quarto me denunciava. Os farelos de biscoito ao lado da cama. As roupas e o lixo espalhados pelo chão.
Sim, querido, eu estou naquele lugar de novo, pensei enquanto encarava meu reflexo no espelho, pela primeira vez em uma semana. Espremi um pouco de creme dental na boca, lustrando os dentes com a língua. Molhei minhas mãos na água gelada e umedeci o cabelo, ajeitando-o atrás da orelha. Num gesto desajeitado, borrifei um pouco do perfume importado que Luís me dera de presente. Mas era inútil. Naquele momento, eu sabia: nada melhoraria minha aparência de defunto.
Os olhos afundados numa bolsa escura de insônia, a boca rachada, os olhos remelentos, o rosto pálido como os ossos que ouço ranger sob a força de meus dentes cerrados. Isso só melhora quando essa fase passa. Ou, como Luís costuma dizer, quando eu volto daquele lugar.
— Você não toma a porra dos seus remédios! — Ouvi ele gritando da sala.
Respirei fundo e caminhei em sua direção.
— Eu tomo, sim, Luís. Mas não posso evitar, você sabe.
— Você estava bem até, sei lá, duas semanas atrás. — Ele me lançou aquele olhar de desprezo que eu só via nesse período. — Perdemos a viagem que comprei há meses!
— Desculpe — disse, com a voz sumindo no soluço que se formava em minha garganta.
— Nem para atender o telefone dessa vez? — ele continuou, indignado. — Eu achei que você estivesse morta, caralho!
É como se eu estivesse, disse só em pensamento.
— É demais para mim, Carol. — Ele balançava a cabeça, e eu já sabia o que viria a seguir. Não seria a primeira vez. — Não posso lidar com suas merdas o tempo todo.
Nem se eu tivesse força, conseguiria segui-lo quando ele saiu batendo a porta. Talvez fosse melhor assim. Eu não tinha o menor direito de afundar as pessoas no buraco intermitente que se abria em minha vida — sem aviso prévio, sem amortecedor.
Os dias que se seguiram trouxeram consigo aquela peculiar sensação de serem sempre os mesmos. Era pura física do vazio. Uma espera sem promessa. Apenas o zumbido agudo da ausência, crescendo como um tumor nos meus ouvidos.
Muitas vezes me peguei agachada dentro do box, nua sob a água, os olhos fixos na gilete esquecida no nicho — tão pequena, sussurrando grandes promessas de alívio. Mas, desde a última vez, quando cavei mais fundo do que devia, tento me conter. Faço das mãos conchas, desvio o olhar, reúno toda a vontade que ainda me resta para não ceder à carícia da navalha.
Mas hoje eu perdi a batalha. Agarrei o cabo de plástico cor-de-rosa por impulso. Fiquei contemplando as três lâminas reluzindo, a água do chuveiro formando gotas de orvalho entre elas. Pode ter sido isso, dessa vez. Eu nunca sei exatamente o que é. Mas, só talvez, o brilho metálico da lâmina, refletido no canto dos meus olhos, me devolveu o que eu sempre perdia por aí. Me trouxe de volta daquele lugar.
Raspei minhas pernas cabeludas, asquerosas, do tornozelo até a virilha.
Pus-me de pé e lavei os cabelos várias vezes seguidas. Deixei a máscara de tratamento agir por três vezes o tempo recomendado no rótulo. Esfreguei, com requinte de crueldade, a bucha vegetal em cada dobra, superfície e orifício do meu corpo. Deus, como é bom tomar banho. Sai do banheiro, a toalha enrolada na cabeça. Cadê a porra do meu telefone?
— Maria, meu amor! Você pode vir aqui hoje? — Falava ao telefone com a diarista enquanto tentava encontrar uma peça de roupa decente. — Ah, não. E se eu pagar o dobro que essa mocréia te paga? Jura! U-hul! Vou deixar a chave no mesmo lugar. Te amo, Maria!
O sol queimava minha pele e parecia me empurrar para fora. Fui direto ao botequim da esquina, o melhor self-service da cidade. Sem balança! Um alpinista poderia escalar a colina de comida do meu prato. Minhas visitas deveriam ser um puta prejuízo para o Seu João, mas eu sempre deixava gorjetas generosas, talvez três vezes o valor do que comia — ou, melhor, do que mal provava. Besliquei umas batatinhas, um pedaço de carne, bebi duas ou três doses de cachaça , em dois ou três goles de uma vez, mas estava com pressa, eufórica, como se cada minuto perdido fosse um pecado.
Peguei meu carro. O vidro coberto de multas era só um mural a ser ignorado. Catei todas, atirei no chão da rua. Acelerando, ultrapassei sinais, buzinei para um velho que atravessava devagar demais para o meu gosto. O banho ajudava, mas não fazia milagres. Fui ao salão de beleza e saí de lá outra pessoa. Eu precisava estar irresistível esta noite. Tinha que reconquistar o Luís. O que, francamente, não era nada difícil. A voz aveludada ao telefone foi o bastante. Ele passaria lá em casa mais tarde. Passei no mercado, comprei duas garrafas de vinho. Uma para noite, outra para as horas que faltavam até lá.
Tive que resolver algumas pendências também. Chamei o pessoal para sair esse final de semana — amigos de curto prazo, é claro, já que eu nunca os mantinha por muito tempo. Respondi aos muitos e-mails de trabalho que lotaram minha caixa de entrada. Droga, teria que dormir com meu chefe de novo!
Quando voltei para casa, que já estava limpinha e cheirosa, fiquei esperando o Luís ansiosamente. Andava pelo quarto em círculos, testava poses em frente ao espelho, destruía todo o trabalho da manicure ao arrancar unha e carne com os dentes. Quando ele chegou e me viu, esboçou o maior sorriso do mundo. Também, não era para menos: cabelos esvoaçantes, batom vermelho, cheiro de perfume caro dessa vez — e não de merda. Ele mal conseguiu terminar sua taça de vinho.
Já havia me jogado na cama, nos lençóis recém-trocados. E enquanto ele estava por cima, e eu mordiscando sua orelha, olhei para o teto e vi a mancha de novo. Dessa vez, no entanto, minha pupila dilatada pela cocaína enxergou com mais clareza. Era só uma mancha escrota e disforme. Aquela rachadura poderia se abrir por inteira, e todo o prédio cair sobre mim, eu simplesmente não me importava.
Luís estocava com mais violência agora, mas a voz foi doce ao sussurrar no meu ouvido:
— Amo quando você está aqui! Amo quando volta daquele lugar!
Ah, amor! — gemi em resposta
Como ele poderia saber? Ele me acha tão legal assim.
Mas a verdade é que, no fundo, não faz a menor diferença.
Os dois lugares são o inferno pra mim.