Desaprendi o caminho de casa, abandonei nossas ruas
junto com as manhãs
serenas, o aroma de café,
o burburinho da feira, o frescor de sacolé,
e as promessas ingênuas de que seríamos namorados.
Parti em busca de um mundo idealizado,
um lugar onde
coubesse essa ânsia voraz,
o desejo inquietante, o sonho audaz
de "ser alguém na vida", não a sombra dos meus
pais.
Fugi do que éramos, buscando algo a mais,
algo cujo nome eu já não lembro,
temendo que a paz — tão teu alimento —
me aprisionasse no acalento de dias tão iguais.
Eu achei que não suportaria ser só aquilo,
ver o tempo escorrer por mim, tão inerte, tão aflito,
e abraçar o marasmo que em ti se aninhava.
Eu queria ser diferente, romper o ciclo,
ser alguém de quem eu me orgulhava,
não a eterna poeira daquelas calçadas.
Mas cá estou, do alto de prédios e sacadas,
lembrando de nós — um cruel castigo —
tenho a vida mais vazia, insossa e parada,
parece que o erro sempre esteve comigo.
Aqui, perco-me na formalidade das palavras,
esnobes estranhos se proclamam meus amigos,
mas nenhum deles conta as suas piadas;
eles não entendem os meus sonhos, não conhecem nossos risos.
Hoje, sou atormentado pelo que só agora eu vejo:
contigo, eu tinha tudo o que há de raro.
Mas eu cresci em guerra, lutando contra mim mesmo,
sentindo-me digno de pena, e não de ser amado.
Dilacerado, eu só não sabia como reagir...
cego pelo brilho de uma alma tão singela.
Eu odiava tudo em mim; enquanto você...
você me amava do jeito que eu era.
E, mesmo envolto em teu amor paciente,
não consegui florescer no jardim que plantavas.
Teu coração tolo tentou criar sementes
num abismo profundo onde nada vingava.
Era como se eu visse o paraíso de longe,
como se o brilho do Sol não me tocasse.
O amor que você me deu, tão terno, tão grande,
não conseguiu fazer com que eu me amasse.
Na busca insana por um senso de pertencimento,
desfiz o abraço mais puro que eu conhecia.
Nunca estive tão sem lar, tão cruento
sendo apenas ruína do que eu pretendia.
Agora, eu não me atrevo a voltar para casa,
não com o peso de tanta vergonha.
Mas, se eu ousasse responder tua carta,
assumiria que o bicho da saudade me mata,
e que é só contigo que minha mente sonha.
Logo eu, um viciado supersticioso,
tão covarde e mentiroso
sem mais fichas para apostar,
sem mais mandigas para fazer.
Sempre fui um bom perdedor
mas eu sabotei o nosso jogo
e não aprendi a te perder.