quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Na minha cabeça

Na minha cabeça eu sou uma refém
À mercê de alguém que quer o meu pior
Na minha cabeça o caos é tão constante
E não tem um instante que eu não me sinta só
Na minha cabeça eu crio a agonia
De morrer tão vazia sem conquistar nada
Meu coração se empedra de medo
Vou contando nos dedos as horas acordada
Eu não deveria me afogar em prantos
Nem perder o encanto após um dia ruim
Eu costumava gostar mais da vida
Quando era florida; minh'alma e meu jardim
Mas essa voz agora não se cala
Tem um odor que exala, impregna dor em mim
Na minha cabeça já deu tudo errado
E sem ter começado, eu já decreto o fim.


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PS: Este texto foi escrito como parte de um exercício proposto pelo professor do módulo de Poesia e Letra de Música do meu curso de Formação de Escritores (Curso Metamorfose). O objetivo do exercício era criar uma letra a partir de uma música já existente, como forma de estudar tipos e métricas de rima. Optei pela música "Naquela Mesa", de Nelson Gonçalves , pois sempre admirei a complexidade da construção das rimas externas e internas dessa canção.

sábado, 7 de dezembro de 2024

Jogo dos Sete Erros

Desaprendi o caminho de casa, abandonei nossas ruas

 junto com as manhãs serenas, o aroma de café,

o burburinho da feira, o frescor de sacolé,

e as promessas ingênuas de que seríamos namorados.

 

Parti em busca de um mundo idealizado,

 um lugar onde coubesse essa ânsia voraz,

o desejo inquietante, o sonho audaz

de "ser alguém na vida", não a sombra dos meus pais.

 

Fugi do que éramos, buscando algo a mais,

algo cujo nome eu já não lembro,

temendo que a paz — tão teu alimento —

me aprisionasse no acalento de dias tão iguais.

 

Eu achei que não suportaria ser só aquilo,

ver o tempo escorrer por mim, tão inerte, tão aflito,

e abraçar o marasmo que em ti se aninhava.

 

Eu queria ser diferente, romper o ciclo,

ser alguém de quem eu me orgulhava,

não a eterna poeira daquelas calçadas.

 

Mas cá estou, do alto de prédios e sacadas,

lembrando de nós — um cruel castigo —

tenho a vida mais vazia, insossa e parada,

parece que o erro sempre esteve comigo.

 

Aqui, perco-me na formalidade das palavras,

esnobes estranhos se proclamam meus amigos,

mas nenhum deles conta as suas piadas;

eles não entendem os meus sonhos, não conhecem nossos risos.

 

Hoje, sou atormentado pelo que só agora eu vejo:

contigo, eu tinha tudo o que há de raro.

Mas eu cresci em guerra, lutando contra mim mesmo,

sentindo-me digno de pena, e não de ser amado.

 

Dilacerado, eu só não sabia como reagir...

cego pelo brilho de uma alma tão singela.

Eu odiava tudo em mim; enquanto você...

você me amava do jeito que eu era.

 

E, mesmo envolto em teu amor paciente,

não consegui florescer no jardim que plantavas.

Teu coração tolo tentou criar sementes

num abismo profundo onde nada vingava.

 

Era como se eu visse o paraíso de longe,

como se o brilho do Sol não me tocasse.

O amor que você me deu, tão terno, tão grande,

não conseguiu fazer com que eu me amasse.

 

Na busca insana por um senso de pertencimento,

desfiz o abraço mais puro que eu conhecia.

Nunca estive tão sem lar, tão cruento

sendo apenas ruína do que eu pretendia.

 

Agora, eu não me atrevo a voltar para casa,

não com o peso de tanta vergonha.

Mas, se eu ousasse responder tua carta,

assumiria que o bicho da saudade me mata,

e que é só contigo que minha mente sonha.

 

Logo eu, um viciado supersticioso,

tão covarde e mentiroso

sem mais fichas para apostar,

sem mais mandigas para fazer.

Sempre fui um bom perdedor

mas eu sabotei o nosso jogo

e não aprendi a te perder.