Fadada ao martírio da tua presença,
Que desfila como uma obra da renascença,
Dando de ombros, com a clavícula exposta,
Quase tão saliente quanto uma fratura posta.
Cabides que sustentam as vias sinuosas
De um corpo talhado em perfeitas prosas.
Via tua pele cintilar em nuances perfeitas,
Como se banhada em pérola liquefeita,
Suave como seda, mais alva que porcelana,
Por onde passa trescala o perfume que tua tez emana.
Tuas pálpebras pestanejam como véus,
E o mais próximo que estive dos céus
Foi quando me atingiu tua mirada,
Luz rutilante que inunda e deságua
Dos teus olhos, verdes-esmeraldas.
Admiro as pétalas que viraram pó,
Apenas para ruborizar teus lábios, tão carnudos,
Esculpidos e forrados com veludo,
o pecado sempre morou em polpas suculentas;
Quantas leis eu precisaria transgredir
Para que beijá-los fosse minha sentença?
Tua beleza beira ao absurdo,
Faz de tua existência um insulto.
Me excita ao mesmo tempo que me castra;
Colo tua imagem nas paredes de casa,
Com a saliva que engulo
Toda vez que você passa—
Mas que cuspiria na tua cara,
Não fosse essa vontade sáfica
De trocá-la pela tua.
Tua existência é minha tortura;
Condeno tua imagem à moldura,
Enquanto vandalizo o quadro.
De todos os poetas, és a musa,
E eu, apenas o escarro
Manchando notas de rodapé.
Eu te odiei! Porque sabia
Que sequer em outra vida poderia
Ser metade da mulher que tu és.
E, mesmo nos meus sonhos mais doces,
És tudo aquilo que queriam que eu fosse—
Um lembrete constante do meu fracasso.
Mas eu também te amei!
E esse foi um erro crasso.
Sufoco dentro do teu abraço;
Andar ao teu lado me aleija.
Tua carne não me veste,
Mas tua alma não me deixa...
Eu grito o teu nome
Toda vez que sinto fome
De mim mesma.
De mim mesma.