quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Meu lar é um lugar que não existe

Há uma saudade antiga dentro de mim
Um desejo forte de sentir a brisa
Vinda do coro de canções perdidas
De árvores ainda mais antigas.

Enquanto caminho por trilhas esquecidas
Com os pés pisando em falso
Seguindo o tapete de folhas caídas
Em passos lentos e descalços.

Tom que jamais vi em minha vida
Meus olhos deslumbram um verde mágico,
Soprado de memórias nunca vividas
Afoga meu pulmão num ar escasso.

E quando a noite se derrama por cima
De cada montanha no horizonte
Eu vejo o lume de uma estrela cristalina
Que só daqui não parece tão distante.

Mas, junto às margens de um lago frio,
Mergulho em meu íntimo vazio
E embora gentis sejam as águas
Sempre me vejo sendo arremessada

À mercê de imensas ondas amarelas
Vindas do folhear fugaz de um livro
Extirpada do meu mundo cripto
E de volta à realidade que me gela

Sou eu quem retorna à estante
O antagonista sempre vence
Enquanto eu cambaleio como figurante
Na única vida que me pertence.

Perdida na minha própria narrativa 
Como um rascunho numa página rasgada
Vivendo todos os finais e as perspectivas
De uma história que jamais será contada.

Aqui, ninguém me chama ou me espera
Nada é meu ou quer que eu fique
Deito à sombra desta terra
Onde o meu sonho não persiste.

Minha voz se ergue e berra
Meu coração se parte triste
Inundado de saudades
De um lugar que não existe.