quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Cafamargo

Como de costume, preparei o café, certificando-me de que estivesse agradavelmente adocicado. E estava. Meu paladar aguçado para o doce se fez por satisfeito. Olhei de relance e ele estava se vestindo. Eu sabia que aquela era a última vez. Apesar da inquietude que me permeava, tentei exibir indiferença enquanto despejava minha ansiedade no suave tintilar da colher contra a xícara. Presumi que a cafeína tivesse agido mais rápido do que o habitual quando meu coração disparou subitamente, mas logo percebi que era porque ele estava se aproximando. O calor que exalava de seus poros o denunciava, tão notável quanto a luz do sol que desponta após uma neblina. De repente, fui surpreendida com um ósculo sem pudor. Os lábios dele encaixaram-se perfeitamente nos meus, como se fossem feitos sob medida para mim. 

Contudo, após algumas breves eternidades, nosso beijo perdeu o gás e nós desfizemos o laço que, há pouco, nos unira com tanta paixão. Ele fixou os olhos nos meus e se dissipou como fumaça. Eu o segui, sem desviar o olhar, buscando ver seu rosto nas fendas de luz enquanto ele fechava a mala. Eu sabia que ele estava me deixando. Aquele beijo foi digno de um último beijo. Apesar de que, admito, no ato, um vislumbre de esperança tomou conta de mim. Um sublime devaneio arrebatou-me e eu me permiti pensar no quão bom seria se, porventura, por vontade ou por loucura, ele resolvesse ficar.

— Fique! 

Aquela palavra saiu da minha boca de uma maneira tão extasiante que eu achei que só aquilo poderia convencê-lo. Ele apenas me lançou aquele olhar traiçoeiro, e resposta nenhuma se fazia necessária. Ele continuou a se arrumar, enquanto eu permanecia à espreita, como um fantasma. E, em breve — eu sabia! — apenas um fantasma ele seria. Assombrando todos os meus sentidos. 

Poucos instantes se passaram desde minha ação impulsiva e a hora de partir havia chegado. Ele caminhou em direção à porta com passos largos e pesados. Permaneci em silêncio, aguardando uma breve conversa de despedida ou uma pequena declaração de afeto, mas não obtive nada. O som da porta batendo foi a última coisa que eu o ouvi dizer. Permaneci estática por eternos segundos. Todas as paredes zombaram de mim. 

Para minha surpresa, quando retornei à cozinha para terminar meu café, descobri que ele estava inteiramente amargo. 
Mesmo após servir outra xícara. 
Mesmo depois de fazer outro café. 
O amargor permanecia em minha boca, impregnado!
Um acerbo sem fim. 
Terrivelmente amargo.
Foi o adeus dele para mim.