domingo, 24 de dezembro de 2023

Dia 24 de dezembro (e os outros 364)

eu lembro como se fosse agora
manhã do dia 24 de dezembro
uma data que eu gostava outrora
quando eu acordava com os seus acenos

o sol brunia a tua janela 
e eu pedia a ele para ser gentil
que iluminasse as flores da sua tela 
a mais bela aquarela primaveril

o almoço era servido escondido
desviado da ceia principal
ao meio dia roubando beliscos
petiscos das delícias de Natal

desprendendo-se da caramboleira
as folhas que eu disse que iria varrer
e apesar d'eu não gostar de fruta azeda  
carambolas! eu recolhia todas elas para você

o aroma doce de suas rabanadas
recheadas com creme de avelã
frescas na mesa bordô ornamentada
ainda serão requentadas pela manhã 

à noite nunca me faltava nada
teu suor me vestia e me alimentava 
você usava aquele traje surrado de sempre
e ainda remendado era mais radiante que a luz poente

Jesus Cristo, chaminés, neve e Papai Noel
caprichos capitalistas que eu só conheço pela TV
nunca foram minhas referências de Natal
para mim, toda essa festa era sobre você

mas nos últimos anos póstumos
e com certeza em todos os próximos
a manhã de 24 de dezembro não é mais especial
é igual à manhã de 24 de setembro
que é igual à tarde de 07 de novembro
que é igual à noite de 12 de junho
que é igual a todos os dias de agosto
e se parece muito com as noites de outubro 
que, por sua vez, se parece com fevereiro
que se arrasta pelo tempo igual janeiro
que faz um estrago como maio
e rasga meu peito como abril
da mesma forma que março
desde daquele julho, ninguém mais viu
que todos os dias são os mesmos
desde que você partiu.

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Luto

Amanda nunca mais entrou no quarto dele. 
Natália fez de lá um santuário. 
Armando cancelou as revistas por assinatura. 
Bianca ama ler o nome do destinatário. 
Elisa não consegue ouvir as músicas. 
Nicolas foi ao concerto da banda preferida dela. 
Eva continua indo ao sarau de poesia. 
Vivian já não assiste mais aquela novela. 
Igor pega o caminho mais longo para casa. 
Danilo sequer consegue sair da cama. 
Em que momento se aponta uma dor que se disfarça? 
Se não existe manual quando se perde quem se ama.