manhã do dia 24 de dezembro
uma data que eu gostava outrora
quando eu acordava com os seus acenos
o sol brunia a tua janela
e eu pedia a ele para ser gentil
que iluminasse as flores da sua tela
a mais bela aquarela primaveril
o almoço era servido escondido
desviado da ceia principal
ao meio dia roubando beliscos
petiscos das delícias de Natal
desprendendo-se da caramboleira
as folhas que eu disse que iria varrer
e apesar d'eu não gostar de fruta azeda
carambolas! eu recolhia todas elas para você
o aroma doce de suas rabanadas
recheadas com creme de avelã
frescas na mesa bordô ornamentada
ainda serão requentadas pela manhã
à noite nunca me faltava nada
teu suor me vestia e me alimentava
você usava aquele traje surrado de sempre
e ainda remendado era mais radiante que a luz poente
Jesus Cristo, chaminés, neve e Papai Noel
caprichos capitalistas que eu só conheço pela TV
nunca foram minhas referências de Natal
para mim, toda essa festa era sobre você
mas nos últimos anos póstumos
e com certeza em todos os próximos
a manhã de 24 de dezembro não é mais especial
é igual à manhã de 24 de setembro
que é igual à tarde de 07 de novembro
que é igual à noite de 12 de junho
que é igual a todos os dias de agosto
e se parece muito com as noites de outubro
que, por sua vez, se parece com fevereiro
que se arrasta pelo tempo igual janeiro
que faz um estrago como maio
e rasga meu peito como abril
da mesma forma que março
desde daquele julho, ninguém mais viu
que todos os dias são os mesmos
desde que você partiu.