sábado, 26 de novembro de 2022

Desperdício Literário

Tantas foram as vezes em que meu rosto fora acalorado por uma vela 
Com uma chama singela que afugentava a escuridão
Apenas para que eu pudesse enxergar meu punho suplicando por destreza
Para registrar toda a tristeza que escorre por minhas mãos

Nas noites menos clássicas em que meus dedos perseguiam pixels
Meus olhos se cansavam pela luz fraca de uma tela pequena
Confidenciando minha intimidade a placas de silício
Incapazes de processar as angústias que codificam meu sistema 

Me assusta o tempo em mim gasto com o teu nome
Nada me devolve as sinapses que queimei só para te escrever
Por dias perenes em que minha alma rugiu de fome
Eu só me alimentava dos versos que eu vomitava por você

Mas eu teria engasgado com um bolor em minha garganta
Se eu me atrevesse a enterrar essas palavras sobre minha pele
E ainda que eu assine mil poemas com o meu nome - Bianca 
Serei sempre uma anônima cuja fúria não te fere

Eu gostaria de devolver as palavras que roubei do dicionário
Todas essas pobres rimas foram despendidas em vão 
Hipérboles comedidas e metáforas literais, um desperdício literário!
Dedicado a um iletrado incapaz de ler com o coração

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Açúcar

 

Fita-me 
tão docemente
é quase como se
 seus olhos
fossem feitos de açúcar.

Derreto-me
inevitavelmente
parece até que eu
por inteira
sou feita de açúcar.




Lusco-fusco

O Sol está se pondo agora, tão cansado
Um cintilar alaranjando penetra todo ocaso da cidade
Nuvens cinzas de eletricidade desfilam no ar
Despejando uma chuva de gotas finas e afiadas
Em contraste às nuvens rosadas e pomposas
Pousadas sobre uma pequena fresta do céu
Que teima em permanecer fiel ao azul mais claro
A despeito de todas as investidas da noite
Que por um instante raro
Guarda para si o brilho das estrelas
Enquanto surge tímida entre raios anárquicos
Por entre brisas simpáticas que desaguam o suor 
Colocando fim a mais um dia abafado
O vapor quente que sai do asfalto embaça o ar
A chuva se apressa para frustrar os planos de alguém
E o vento que convida os galhos secos para dançar 
Me faz querer dançar também


Ah, o lusco-fusco
Dança celeste de luz e altivez
Seduz os exaustos neste dia que se desfez
Acalenta os fracos, reluz em opaco
E todos aqueles que precisavam de beleza
Depois de um dia árduo
Mas que bela surpresa: bastava só olhar para o alto!


domingo, 13 de novembro de 2022

Olhos de Maracaibo

Assim como quando um raio se desprende da nuvem mais obscura do céu
E escorre exasperado em direção ao solo sagrado
Antes que eu possa dar um passo
O clarão de sua chegada sequestra minha visão
Um, dois, três... 
Prendo a respiração
Esperando o ar expandir por dentro dos meus ouvidos
Depois do relâmpago sempre vem o trovão.

E é por isso que eu sei que há algo errado contigo
Só pela forma com que olhas para mim
A luz que irradia dos teus olhos me eletrocuta
É fria, maciça, afiada
Machuca!
Quatro, cinco, seis...  
Desvio do teu olhar de marfim
Perguntando-me quando hei de ouvir o estrondoso sonido
Da tua voz dizendo que chegamos ao fim.