terça-feira, 26 de setembro de 2023

retrospecto

(hum-hum)

permita que eu me apresente
em retrospecto
montei a cronologia dos fatos
e um discurso discreto

para que conheças quem sou hoje
em todos os aspesctos
deves saber quem eu fui antes 
de caminhar pelo inferno

e se ao final das justificativas 
não me quiseres por perto
se acaso não lhe agradar a narrativa
de que sou vítima de erros hesternos

ao menos eu tentei me salvar
das especulações acerca do mistério
"por que será que ela é assim?"
para algumas dores não há remédio

(e todas elas doem em mim)

terça-feira, 19 de setembro de 2023

Nebulosa

Mas quem diria
Etérea estrela anciã
Por um colapso celeste
No mesmo breu d'onde viestes
Sozinha feneceu

Apenas para que um dia
Nossas massas tornassem-se sãs
Os átomos que nos foram emprestes
Da poeira estelar que nos veste
Nunca nos pertenceu 

E quando o universo bater à porta
Reivindicando cada partícula de volta
Devolvê-las-ei ao solo sagrado
Por onde com enlevo demasiado
Tantos anos caminhei

Com sorte talvez eu me torne 
A árvore que sombreia alguém
Sussurrando através do vento
Que todo mundo tem seu tempo
E que deste ciclo somos reféns

Ossos esfarelados e carne digerida
Arrancadas de mim todas as formas de vida
A natureza pôde enfim reavê-las
Conceda-me então uma última gentileza
Deixe-me voltar a ser aquela sublime estrela

domingo, 17 de setembro de 2023

tamagotchi

setembro e manhã de domingo
é inverno somente no calendário
ornamento caro de flor índigo
escondo-me em um canto solitário

aqui o Sol ilumina quase tanto quanto
teu sorriso ilumina o espaço
e eu disfarço meu tímido pranto
enquanto observo teus pés descalços

caminhas pelo jardim banhada em branco
com a delicadeza de uma margarida
protegida por Deus e todos os seus santos
desabrochando em uma nova vida

raios de Sol encaracolados
são teus cabelos escapando do véu
é linda a forma com que olhas para o teu amor
com o brilho de todas as estrelas do céu

você lê seus votos e diz sim
tira foto com todas as madrinhas
eu não quero fazer isto ser sobre mim
mas em outra época a honra seria minha

agora eu sou apenas uma convidada
que não tem direito a discursos prontos
passei a cerimônia inteira sentada
imaginando um fim melhor para o nosso conto

em qual ponto nossas vidas desconjutaram?
será que ainda temos algo em comum?
poucas vezes nossos olhares se cruzaram
e eu não consegui me guardar em nenhum

nossas conversas eram brilhantes
agora nosso diálogo é enferrujado
nada é como antes, eu te sinto distante
seria melhor se tivéssemos brigado

uma guerra teria sido menos sangrenta
e os golpes teriam sido mais brandos
qualquer coisa é melhor do que essa indiferença
eu não sentiria como se estivesse sobrando 

as juras de mindinho não importam agora
eu não sei quando vou te ver de novo
mais cedo do que eu gostaria, vou embora
numa despedida fria dentro de um abraço torto

a mesma cidade 
que abrigou nossa mocidade
conseguiu nos afastar

e a ninguém cabe esta culpa
nem pedidos de desculpas
não há nada a confessar

fomos nos abandonando...

a cada final de semana que ficamos de ligar, mas não ligamos
nos parques que gostaríamos de visitar, e não visitamos
nas noites que combinamos de jantar, mas desmarcamos
nos bares que queríamos comemorar, e não brindamos
nas conversas que deveríamos começar, mas nos calamos

... agora é estranho dizer que te amo

mas saibas que eu estou feliz por você
e queria passar mais tempo contigo
em nome das memórias que temos
e de todas aquelas que poderíamos ter tido

e saibas que me parte o coração ver
que não queres mais passar tanto tempo comigo
tu só enxergas aquilo que fomos
e não tudo aquilo que poderíamos ter sido.