quinta-feira, 31 de agosto de 2023

Jogo do Bicho

Todos aqueles que cresceram conosco

E todos aqueles que nos viram crescer 

Sempre que eu passo, me alugam

Perguntam como anda você

Com que olhar eu disfarço?

Que não sei mais dos seus passos

E que eu morreria para saber

— É que ocês viviam juntos, pra cima e pra baixo! A essa altura, achei que tavam casados! Mas deixa eu ir lá, querida, tenho que passar no mercado. Mande a ele um cherô e um forte abraço!

Lembra quando achávamos 

Que a lojinha do Seu Zé

Era lavagem de dinheiro?

Bom, eu ainda acho que é

Seu Zé era bicheiro

Dono de cabaré 

Fazia exame de vista

E vendia sacolé

Ele era especialista

Na ciência do migué 

— É fácil ganhar no jogo do bicho. A banca quase sempre ganha. Mas o povo tem seus licutichos, suas mandingas, suas manhas. 

Eu fingia prestar atenção

Naquelas crendices suburbanas

Quanta baboseira!

Prestes a embalar meu "Não!"

Seu Zé era uma ratazana

Mas eu era mestre em ratoeiras

Imagine, então, a minha cara, incrédula!

Quando te vi contando as cédulas

E cada centavo da tua carteira

Você estava levando a sério

Como se fosse um grande mistério 

Toda aquela asneira

Ah! Eu já deveria ter pressuposto

Que amigo meu teria esse gosto

Meio místico, meio tosco

Tua inocência me fazia rir, apesar do desgosto

E Seu Zé continuava o espetáculo

Ele mal podia conter o entusiasmo

Tu eras a mais nova alma que ela havia raptado

— Tens que acreditar nos seus sonhos. Eles são mágicos! Todo sonho tem um significado. Junte isso a hora que o relógio marca assim que você acorda, e tá feito. Se não der certo, você não fez direito. Deve ter escapado um sinal aqui ou acolá. Continue a tentar. Terno, duque, quadra, quina. Eu tô sempre nessa esquina. É só jogar.

— Isso é só um jogo de sorte — retruquei, mas queria mesmo ter dito "jogo de azar"— Eu só vim pegar os óculos da minha mãe. Ela tá uma semana sem enxergar.

— Jogo de sorte só jogamos com a Morte. Cá estão os óculos dela. Ei, garoto, não escute ela! Deixe os sonhos te guiar!

E desde então você gastou 

Cada tostão que ganhou

Limpando carros

Entregando quentinha

E varrendo asfalto

Naquele assalto à lábia armada

Mas, tudo bem, eu admito 

Até que foi divertido

Quando você ganhou aquela bolada 

E eu sei que você insiste 

Em dizer que foi o tigre

No teu sonho, que te fez ganhar

Mas para mim é estatística 

Não existe regra mística 

Uma hora a probabilidade iria te laçar

E com o prêmio que você ganhou

Distribuiu sacolés para todas as crianças da rua

Como fizera em todos os outros meses de verão 

Banho gelado no chuveirão

Conversas idiotas à luz da lua

Mariposas da luz zonzando no poste

Cigarras catando à própria morte

Nosso primeiro beijo vinha forte

Quente como o sopro do vento

Úmido como todos os sonhos lentos

Que tive sobre você

E que eu ainda continuo tendo 

Mesmo depois de você desaparecer

Bom, me diga agora, que tipo de jogo eu faço

Para ganhar-te de volta?

Desde o dia em que você foi embora

Eu só sonho com o animal que você se tornou 

A fera sem coração que me abandonou

Nesta cidade fantasmagórica

É uma batalha sem glória 

O bicho da saudade devora

Os restos que você deixou

E eu jogo com dados viciados todos os dias

A cadeira ao meu lado segue vazia

Por que você nunca me retornou?

Todas as histórias que temos

Eu não as construí sozinha

Mas isto tornou-se um monólogo, e eu temo

Que agora elas são só minhas

Desde quando você pegou a estrada

Sem olhar para trás 

Tratou nossa história como nada 

Você nem me liga mais

Mas que droga! Você se casou!?

Eu soube pelos seus pais

 Foi uma cerimônia íntima. Nada demais. O nome dela é Cíntia, ela trata de animais. Mas não é veterinária, eu esqueci o nome do que ela faz. É Zoo-alguma-coisa-do-tipo. Eu até brinquei: “Vai dizer que cê joga no bicho?! Olha que ele vai gostar mais!”

Tentei disfarçar o riso amarelo

Para dizer que desejo felicidades

Mas eu não quero

E não pode ser verdade

Que temos 27 agora

E eu não sei dos seus carnavais

Você não só foi embora

Como sempre me ignora

E simplesmente não retorna 

Nenhum dos meus cartões postais

O que mais me irrita 

É que eu não te conheço mais

Mas se você se importasse em saber

Ainda me conheceria por quem eu sou

Porque nada em mim mudou

Nem mesmo o amor que eu sentia 

Antes da sua partida

E que eu continuei sentindo

Mesmo após sua ida

  Essa cidade foi meu berço, mas não será mais meu lar. Mas não se preocupe, são só seis horas de carro. Dá até para ver o meu rastro. Nos finais de semana e feriado... eu volto para cá! Você também pode me visitar. Seu telefone sempre irá tocar!

Promessas mantidas

Por tão pouco tempo

Dois meses

Para ser exata

Até que notícias suas 

Ficaram escassas 

E eu tentei tanto

Por tanto tempo

Te trazer de volta

De tantos jeitos

De todas as formas

Por todos os deuses

Em todas as horas

Acontece que por aqui...

As ruas, as esquinas, 

Os bares, as ruínas 

Tudo contina igual

As árvores, as poças

Os rapazes, as moças 

Ninguém mudou de código postal

E este sempre foi o problema, afinal 

Você não suporta monotonia disfarçada de paz

Se via preso neste dilema

Por isso se arriscava em jogos ilegais 

Mas, sabe, existiam outros remédios 

Para acabar com o tédio 

Você não precisava ter se desfeito de nós

Nenhuma arquitetura moderna é tão charmosa

Quanto as saudosas casinhas de nossos avós 

E eu duvido que neste condomínio prateado

Cravado e erguido em solo asfaltado

Você encontre alguém vendendo sacolés

Se te incomodava a vida mansa

A gente inventava uma dança

Acordava a vizinhança 

Você não precisava ter dado no pé

Nós daríamos um jeito

E para todos os defeitos

Ainda tinha o cabaré

E eu...

Se você quiser

Sempre que você quiser.

Eu sou mais tua do que esta cidade é do prefeito

Eu sou mais tua do que esse povo é fofoqueiro

Eu sou mais tua do que Seu Zé é trambiqueiro

Então da próxima vez que se deitar no travesseiro

E eu não aparecer nos seus sonhos

Montada naquele tigre

Desiste! 

Aceito que será o nosso fim 

Mas e se de repente

Eu ainda passear pela sua mente

E você sabe que os sonhos não mentem

Palpite!

Você aposta em voltar para mim?

quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Quando eu era só uma onda

Quando eu era só uma onda
Destruindo os jardins do paraíso 
Eu queria esfriar a superfície de um bilhão de sóis

Quando eu era só uma onda
Naufragando todos os navios
Eu seduzia os marinheiros e os afogava em meus lençóis 

Quando eu era só uma onda
Inebriando caos à maresia
Eu impregnava melancolia por todo cais

Quando eu era só uma onda
Velejando na correnteza sozinha
Eu roubava a cor de todos os corais

Quando eu era só uma onda
E a neblina da manhã me cobria
Eu rasgava o véu da atmosfera 

Quando eu era só uma onda
E a maré, com ira, se erguia
Eu sentia a inevitável necessidade de também ser fera

Quando eu era só uma onda
A ressaca do mar não doía
Eu estava anestesiada 

Quando eu era só uma onda
E a noite era fria
Eu era ainda mais gelada.

Mas justo quando eu achei
Que para sempre eu seria rei
Em um império de espuma e tristeza
E que nenhuma força da natureza 
Portasse suficiente destreza
Para me arrancar deste mar,
Eis que brutalmente atinjo a costa
E apesar da violência 
Com que me desfiz na encosta
Pude saciar minha íntima urgência:
Repousei em terra firme
Poderia aqui ser meu lar?

Cravei minhas mãos no solo
Não era areia movediça
Tampouco armadilha de pirata
Filha banhada em ouro e prata
Fui presenteada com um sopro de ar
No leito de uma superfície sagrada
Tudo o que meu corpo precisava 
Para descansar. 

E, de repente,
eu não era mais a fúria de um tsunami
Que engolia o mundo
Sem sequer dar-lhe uma chance.

Pela primeira vez,
eu não era um abismo
E não havia abismos me encarando de volta
Somente o brilho de um bilhão de estrelas
E cada uma delas me abriu uma porta

Ali, eu percebi que o céu era mais soberano
Eu nunca fui só uma onda
Eu sempre fui oceano.