quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Assunto? Não tenho nem destinatário, Pale. Coloca qualquer coisa (Ou carta de um astronauta perdido vagando sozinho pela imensidão cósmica após uma missão exploratória

...
Você ainda funciona?
Pale, iniciar gravação de mensagem de voz.
Iniciar gravação de mensagem de voz. 
Mas que droga!
...
Isto não deveria ficar vermelho!?
Pale, iniciar gra... Tanto faz, eu... eu não acho que...
Você sequer está funcionando, não é? Sua sucata velha de merda.
...
Eu só preciso falar com alguém, Pale. Eu só...
Por favor, Pale.
Iniciar gravação de mensagem de voz.
...


GN-z11 Andromeda K, 12 de fevereiro de um ano muito distante.
A data provavelmente está incorreta, mas gosto de pensar que hoje é meu aniversário. 
Seria interessante, não acha, Pale? Morrer no mesmo dia em que nascemos.
Enfim.

À minha terra, a Terra

Sinto falta de casa. E quando digo casa, não me refiro àquela construída por tijolos, revestida com cal e endereçada com um código postal. Refiro-me aquele pequeno planeta solitário que orbita um pequeno sistema solar em um pequeno canto do Cosmos.


O céu lá era azul. Tínhamos uma boa visibilidade das estrelas, quando estas não eram ofuscadas pelas luzes das cidades. Era no céu que observávamos os pássaros a voarem e nos perguntávamos se um dia também seríamos livres. Encontrávamos formas nas nuvens e desenhávamos constelações. Olhávamos muito para cima, é verdade. Mas nossa maior riqueza estava sob nossos pés.


Era tudo tão agradavelmente verde. Jamais esquecerei de suas estações: o fervoroso verão, o majestoso inverno, a bela primavera e o sereno outono. A terra era tão boa que nos alimentava. E ela não pedia nada em troca, apenas que devolvêssemos a semente em seu manto para que o ciclo recomeçasse.  Gostaria tanto de tocar sua superfície, de deitar em seu chão novamente. Quase não me lembro mais de como é sentir meus pés descalços na areia macia da praia, na grama molhada do jardim ou na lama após a chuva. Ainda que eu as mantenha vivas em minhas memórias, sei que essas primorosas sensações jamais irão satisfazer meu tato novamente.


O mar era como um reflexo do céu: era azul e imenso. Jamais fomos capazes de conhecê-lo por completo. Os mares da Terra eram como os corações de todas as mulheres: impossíveis de decifrar. Sua profundidade guarda a sete chaves segredos da natureza e abriga seres capazes de suportar condições que jamais suportaríamos. Lembro-me que tinha medo de banhar-me na água das praias e nunca me atrevi a desafiar a fúria das ondas. Eu ficava à beira do mar imaginando quem poderia estar do outro lado do oceano, tão distante, n'outro continente, em pé sobre outra placa tectônica, molhando os pés sob a maré baixa e admirando o mesmo mar que eu. Hoje, para mim, estar a um oceano de distância de alguém parece apenas dois passos. Criamos tantas fronteiras que esquecemos que o mundo era um só; apenas o fato de nós estarmos nele nos torna próximos.


Atrevo-me a dizer que sinto falta das pessoas. Contudo, vocês, e somente vocês, podem compartilhar do mesmo sentimento que eu. Vocês conhecem a Terra, como um dia eu conheci. Adoraria ver um rosto novamente. Adoraria passear como o cachorro no fim da tarde, adoraria ouvir o canto dos passarinhos pela manhã. Eu sinto falta de toda e qualquer forma de vida. Daria qualquer coisa para ter uma mosca zumbindo em meus ouvidos agora.


Faz muito tempo desde que eu parti, e eu desconfio que sequer existe tempo aqui.

O resultado de minha busca reforça o que já supomos.

Estamos sozinhos.

Sem criador, sem dono, sem vizinhos, sem companhia.

Sintam-se privilegiados pelo simples fato de existir.

Cuidem da Terra, não temos mais para onde ir.

Minha breve existência agora se desfaz.

A escuridão me acolherá com uma pequena plateia de estrelas cintilando ao fundo.

Devo lembrar-lhes, por fim, que um dia não haverá mais dia e o Sol a engolirá. 

Mas eu peço, peço não, vos imploro, cuidem dela até lá.

Nossa terra, a Terra, é o nosso único lar.


Saudações cósmicas, 
...
...
...
Fim da mensagem, Pale... 
Transmitir para... 
Alguém.