sexta-feira, 11 de março de 2022

Cama feita para dois

Ao crepúsculo da manhã, teu lado da cama desentenebrece

Minhas pupilas se contraem em busca da tua silhueta, mas ela não aparece 

Meu olhar se choca contra uma parede fria, o silêncio do quarto me ensurdece

O Sol que nasce se vangloria, um dourado vil que se intumesce

Agora ele é quem ilumina o dia, com um brilho medíocre que não me aquece

 

Nem mesmo a explosão de cinquenta mil estrelas

Tão pouco o clarão de um milhão de fogueiras 

Não há luz na natureza que pudesse ofuscar a tua

Os planetas lamentavam-se por não te ter como lua

Nada resplandecia mais forte que a aurora do teu sorriso

Nenhuma criatura desta terra era capaz de competir contigo

Pois nem mesmo a mais pura alma do paraíso equiparava-se ao teu nível

 

Agora minha mão desliza sob o lençol e tateia um volume morto

A seda se torna áspera diante do que era a tez do teu corpo

Meus pés tocam no chão, é como se o mundo fosse torto

O vento que adentra a janela me atinge como um soco

Grito teu nome da sacada, passo o dia todo absorto

Perambulo fraco pela casa, inteiramente oco

Sinto falta da tua graça, de ouvir teu riso frouxo

 

 

Conforme o dia escorre é dilacerante a tua ausência

E nada me socorre desta eterna convalescência

Em toda superfície que você tenha tocado

Quando eu passo, arranca-me fora um pedaço

O relógio marca as horas, mas o tempo continua estagnado

A essa hora, às 16, você já teria chegado

E eu já teria me perdido, outra vez, na imensidão do teu abraço

 

As tuas coisas ainda todas no lugar, de nada eu me desfaço

Teu livro está na página que deixou; na cafeteira, o último café que passou

Teus sapatos no tapete junto à porta; nosso cão como quem pergunta "quando ela volta?"

Teus papéis espalhados em cima da escrivaninha

Tuas roupas eu não doei, eu não me desfiz de nenhuma linha

Quem sabe até quando teu cheiro vai durar no travesseiro? 

Só sei que da tua escova eu não tirei  um único fio de cabelo

 

Todo dia é igual ao dia em que você se foi

Não existe novos caminhos, não existe vida depois

No fim do dia eu me deito sozinho

Numa cama feita para dois.





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