Deixar a mente
Ser colonizada
Pelos outros
Morrer escravizada
Dolorosamente
Aos poucos.
Pedro Alvares Cabral.
Eu sabia a resposta na ponta da língua. Não que fosse necessário ser um aluno excepcional para saber disso. Impresso em todos os livros de história, mimeografado em folhas ainda volatilizando álcool e estampado em letras garrafais no quadro negro. Saber que foi Pedro Alvares Cabral quem descobriu o Brasil era quase que um dever cívico, já esperado de crianças em idade escolar. Para falar a verdade, eu não me recordo em qual série ou com qual professora eu aprendi esta lição. Eu sinto como se essa informação estivesse codificada e programada para lampejar em meu cérebro desde o momento em que minha mãe me matriculou no jardim de infância. Seria inevitável: cedo ou tarde, uma professora mansa, já cansada do ano letivo, lecionaria mais um tópico da lista de conteúdo pragmático que fora cuspido em suas costas. Então, um dia, sem grandes pretensões, eu acordaria, tomaria meu achocolatado, vestiria meu uniforme e minha mãe me levaria à escola. No entanto, ao retornar para casa, eu não seria mais aquela criança que abraçava a ignorância de maneira inocente, alheia às referências fabricadas da história que moldou a sua nação.
Mas engana-se quem acha que se trata de uma simples lição de história. Era mais do que apenas decorar o nome de um homem há muito já morto. Quando você ensina a uma criança, por exemplo, que dois mais dois são quatro, é só isso. Dois mais dois são quatro - nu e literal. Não há nada por trás desta informação, a não ser talvez algumas conjecturas matemáticas. No entanto, quando você ensina a uma criança que 'Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil', inúmeras ideias são construídas na cabeça dela. A primeira delas, e mais óbvia, é a de que alguém foi capaz de realizar o feito de descobrir uma terra tão grande - afinal, desde cedo nos acostumamos a ver o mapa do país e, nessa fase inicial, ainda não há detalhes sobre como o processo (de ocupação) ocorreu gradualmente (e em meio a guerras e tratados). Para a criança, alguém viu o Brasil primeiro, exatamente como ele é, antes de todos, e assim sua história teria começado a partir desse feito único. Enquanto isso, outros países parecem ter existido desde sempre ou, pelo menos, seguiram uma cronologia de existência muito mais tangível, quase canônica.
Eu mesma, antes disso, costumava acreditar que tudo sempre estivera aqui, como se o Brasil fosse uma presença eterna no mundo. Será que ainda existem outras terras esperando para serem descobertas? — eu me perguntava, intrigada. Mas uma coisa era certa: depois que aprendi que Pedro Álvares Cabral havia descoberto o Brasil, senti que agora fazia parte de algo maior. Eu era, enfim, uma pequena cidadã brasileira consciente, carregando esse conhecimento como um marco inabalável. Ninguém jamais arrancaria isso de mim.
Até que um dia, depois de muitas doses homeopáticas, mas contínuas, de reflexões críticas, eu desaprendi - ou melhor: eu percebi que essa era uma narrativa. De maneira espontânea, como quem de repente tem um estalo de obviedade após juntar todas as pistas, eu tive a revelação de que isso não poderia ser verdade - afinal, já existiam pessoas aqui. Como, então, poderia ser verdade que o Brasil foi 'descoberto' se já havia pessoas vivendo aqui muito antes da chegada dos europeus? Se já existiam povos neste território, por que os livros de história insistem em chamar os europeus de descobridores? Por que a existência dessas terras precisou ser condicionada à percepção de quem vivia do outro lado do Atlântico? A resposta, percebi, está no fato de que foram eles que escreveram a história. Foram eles que se fizeram as perguntas, foram eles quem deram as respostas.
Mas e se a história fosse contada pela perspectiva dos povos nativos? E se, ao menos em uma nota de rodapé, pudéssemos ter acesso à sua percepção? Que adjetivo seria usado então? Durante boa parte da minha vida, acreditei que Pedro Álvares Cabral havia 'descoberto' o Brasil, até perceber que, no máximo, ele foi apenas o europeu que visitou aqui primeiro. Afinal, para os povos que já viviam aqui, não havia nada a ser descoberto. A história, no entanto, foi generosa com ele e tantos outros, concedendo-lhes títulos magníficos: descobridores de uma nação inteira. Mas eu gosto de pensar que sou uma pessoa moderada, concedo o mérito pelo desenvolvimento marítimo e acredito que ele deva ser reconhecido... em Portugal. Afinal, foi para os portugueses que ele 'descobriu' essas terras. Para os povos que já viviam aqui, ele foi apenas mais um estrangeiro que chegou, sem pedir licença. Curiosamente, nos livros de história de todas as escolas brasileiras, o Brasil nasce em 1500.
Os críticos certamente questionariam que o conhecimento foi estruturado e preservado de maneira mais sistemática pelos europeus – o que, é claro, é fácil de fazer quando não se está sendo subjugado. Por isso, sabemos muito mais a partir da visão deles. Além disso, é inegável que, em um processo de colonização, os colonizados perdem não apenas sua liberdade e autonomia, mas também suas formas de perpetuar saberes, tradições e memórias. Reconstruir essas narrativas de forma completa é, sem dúvida, um desafio imenso, mas também uma responsabilidade urgente. Isso me leva a uma pergunta: como podemos remediar essa lacuna? E quem, em sua suposta 'sabedoria', decidiu que a melhor maneira de fazer isso seria através de celebrações estereotipadas e desonestas?
De volta quando eu era criança, lembro-me das tentativas de celebrar nossa herança indígena, mas agora vejo que soavam mais como um mea culpa superficial do que um esforço genuíno. Lembro-me de várias vezes em que voltei da escola com uma fantasia ridícula, repetindo frases soltas que supostamente representavam a forma como os indígenas falavam – uma caricatura que, em vez de honrar, reforçava estereótipos e perpetuava visões distorcidas.
Mim querer. Mim saber. Índio fazer barulho.
Ninguém jamais me apresentou o idioma tupi guarani, apesar de ser um idioma vivo que nós já falamos naturalmente, embora não reconheçamos. Existem inúmeras palavras extremamente familiares cuja origem é indígena - jacaré, carioca, caatinga, sabiá e abacaxi são só alguns exemplos. Ao invés disso, éramos incentivados a fazer representações mesquinhas e pretensiosas. Não foram as novas lentes politicamente corretas da sociedade que me fizeram ver o quão atroz é essa representação. Eu me dei conta de que homenagens que não se importam em, de fato, prestigiar e dar espaço para determinada figura ou grupo, não são homenagens dignas, são apenas tentativas rasas e egoísta de sinalização de virtude. E este é o grande problema, ao meu ver: eu não sabia como os povos nativos brasileiros eram de verdade, eu só os conhecia pela forma como eles foram retratados. Eis tudo o que nos apresentam: um retrato. A versão contada por outrem. No final das contas, Pedro Alvares Cabral pode ter sido o primeiro europeu a chegar nessas terras. Mas hoje eu sei que a resposta para a pergunta "Quem descobriu o Brasil?" não é tão simples. Envolve uma reflexão muito profunda e eu certamente não sou a melhor pessoa para mediar esta discussão. Apesar d'eu ter me estendido mais do que eu gostaria, o objetivo deste texto não é prolongar ainda mais este debate, tampouco debater nosso sistema de ensino - embora provavelmente eu tenha instigado uma faísca. O motivo pelo qual eu divaguei tanto em cima de uma simples e, aparentemente, inocente questão de ensino fundamental é que eu notei que eu repito o mesmo padrão de aceitação de narrativas alheias... em minha própria história.
Eu acreditei em outros Pedros Alvares Cabrais ao longo de toda a minha vida, isto é, eu tomei como verdade a versão parcial de uma história. Por diversas vezes, eu acreditei na perspectiva que outras pessoas tinham sobre mim. Eu vesti roupas e calcei sapatos que não foram escolhidos por mim. Eu acreditava que eu era como os outros me enxergavam ou como os outros queriam que eu fosse. Eu me convenci de que a narrativa alheia era mais poderosa que a minha e tive que lidar com colonizadores reivindicando partes de mim como território. Aos poucos, eu desisti de tudo o que eu era apenas para existir na perspectiva de outra pessoa. Era mais fácil, eu admito, me conhecer tão pouco, ao ponto de só enxergar o que era refletido nos olhos dos outros. Era como se eu vivesse em um estado semi-dissociativo: ainda que eu tivesse consciência de tudo o que acontecia em minha volta, somente o que era validado pelos outros importava. Viver em função da narrativa alheia é deveras perigoso. A relevância que eu concedo à percepção dos outros sobre a minha imagem é proporcional ao poder que essas pessoas têm sobre mim. E quanto mais você rifa a sua essência, mais vazio você fica. Até que chega em um ponto onde você não tem voz, não tem visão, não tem movimento próprio. É como se você fosse uma pedra, oca e amorfa, cujas as histórias são como um castelo de cartas mal empilhadas à espreita de um sopro. Tudo porque um dia alguém com uma fúria doentia me descreveu como me via - e eu acreditei que aquilo era tudo o que eu poderia ser. Foi uma fatalidade histórica. Uma âncora pesou nos portos da minha consciência, pés lamacentos pisaram sob minhas memórias. Eu me esqueci completamente de quem sempre estivera ali, ajoelhada em solo árido, cuidando, embora nem sempre tão bem, daquele terreno sagrado. Eu, descobridora de mim mesma. Ainda bebê, enquanto eu usava os meus primeiros moles de ar para desencharcar os meus pulmões, foram os meus olhos que pincelaram as primeiras imagens para o meu cérebro, enquanto a minha espinha se arrepiava com o frio duro deste mundo.
Muito antes de qualquer outra pessoa, eu sempre estive aqui - em mim.
A primeira a ver com meus próprios olhos.
A primeira a ouvir com meus próprios ouvidos.
A primeira a sentir com meus próprios sentidos.
E agora que eu sei disso, não aceito as narrativas de outrem. Se sou eu quem tem as memórias, também sou eu quem assina as histórias. E nem em mil e quinhentos anos eu volto a ser a capitania de alguém.
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