quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Quando eu era só uma onda

Quando eu era só uma onda
Destruindo os jardins do paraíso 
Eu queria esfriar a superfície de um bilhão de sóis

Quando eu era só uma onda
Naufragando todos os navios
Eu seduzia os marinheiros e os afogava em meus lençóis 

Quando eu era só uma onda
Inebriando caos à maresia
Eu impregnava melancolia por todo cais

Quando eu era só uma onda
Velejando na correnteza sozinha
Eu roubava a cor de todos os corais

Quando eu era só uma onda
E a neblina da manhã me cobria
Eu rasgava o véu da atmosfera 

Quando eu era só uma onda
E a maré, com ira, se erguia
Eu sentia a inevitável necessidade de também ser fera

Quando eu era só uma onda
A ressaca do mar não doía
Eu estava anestesiada 

Quando eu era só uma onda
E a noite era fria
Eu era ainda mais gelada.

Mas justo quando eu achei
Que para sempre eu seria rei
Em um império de espuma e tristeza
E que nenhuma força da natureza 
Portasse suficiente destreza
Para me arrancar deste mar,
Eis que brutalmente atinjo a costa
E apesar da violência 
Com que me desfiz na encosta
Pude saciar minha íntima urgência:
Repousei em terra firme
Poderia aqui ser meu lar?

Cravei minhas mãos no solo
Não era areia movediça
Tampouco armadilha de pirata
Filha banhada em ouro e prata
Fui presenteada com um sopro de ar
No leito de uma superfície sagrada
Tudo o que meu corpo precisava 
Para descansar. 

E, de repente,
eu não era mais a fúria de um tsunami
Que engolia o mundo
Sem sequer dar-lhe uma chance.

Pela primeira vez,
eu não era um abismo
E não havia abismos me encarando de volta
Somente o brilho de um bilhão de estrelas
E cada uma delas me abriu uma porta

Ali, eu percebi que o céu era mais soberano
Eu nunca fui só uma onda
Eu sempre fui oceano.



Nenhum comentário:

Postar um comentário