Quando eu era só uma onda
Destruindo os jardins do paraíso
Eu queria esfriar a superfície de um bilhão de sóis
Quando eu era só uma onda
Naufragando todos os navios
Eu seduzia os marinheiros e os afogava em meus lençóis
Quando eu era só uma onda
Inebriando caos à maresia
Eu impregnava melancolia por todo cais
Quando eu era só uma onda
Velejando na correnteza sozinha
Eu roubava a cor de todos os corais
Quando eu era só uma onda
E a neblina da manhã me cobria
Eu rasgava o véu da atmosfera
Quando eu era só uma onda
E a maré, com ira, se erguia
Eu sentia a inevitável necessidade de também ser fera
Quando eu era só uma onda
A ressaca do mar não doía
Eu estava anestesiada
Quando eu era só uma onda
E a noite era fria
Eu era ainda mais gelada.
Mas justo quando eu achei
Que para sempre eu seria rei
Em um império de espuma e tristeza
E que nenhuma força da natureza
Portasse suficiente destreza
Para me arrancar deste mar,
Eis que brutalmente atinjo a costa
E apesar da violência
Com que me desfiz na encosta
Pude saciar minha íntima urgência:
Repousei em terra firme
Poderia aqui ser meu lar?
Cravei minhas mãos no solo
Não era areia movediça
Tampouco armadilha de pirata
Filha banhada em ouro e prata
Fui presenteada com um sopro de ar
No leito de uma superfície sagrada
Tudo o que meu corpo precisava
Para descansar.
E, de repente,
eu não era mais a fúria de um tsunami
Que engolia o mundo
Sem sequer dar-lhe uma chance.
Pela primeira vez,
eu não era um abismo
E não havia abismos me encarando de volta
Somente o brilho de um bilhão de estrelas
E cada uma delas me abriu uma porta
Ali, eu percebi que o céu era mais soberano
Eu nunca fui só uma onda
Eu sempre fui oceano.
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