As promessas que enriqueceram meu coração
Naquele típico primeiro de janeiro,
Hoje jazem murchas, dispersas pelo chão:
Já é a segunda semana de fevereiro.
As águas de março, que fecham o verão,
Tornaram-se o meu pior pesadelo;
Um lembrete amargo de que os dias se vão,
Só faz aumentar o meu desmazelo.
Abril desponta sob um céu vasto e âmbar,
E parte tão rápido que mal posso contemplá-lo;
A angústia em meu peito não cessa, inflama!
Sonhos desfeitos viram pó, e eu me entalo!
A esta altura, desisto de lutar contra o calendário:
Não traço mais metas, nem busco mais atalhos.
Caminho perdida em meados de maio,
Apenas com os retalhos da pessoa que eu não me tornei.
É festa junina, mas não há fogueira
Nenhuma luz ilumina meu altar
“Pobre menina, veja essas olheiras,
Seis meses passaram, e ela só soube chorar.”
O frio soprado das luas de julho,
Mantém-me nesta inércia, afogada em mercúrio
Implorei a Deus por um feriado santo em agosto
Ele disse que nenhum santo aguentou até o mês oito.
A primavera se insinua tímida em setembro,
As promessas de ano novo, tão banais, ainda me lembro;
Mas outubro me encontra, enfim, apaziguada,
Perdoando-me as falhas, as trilhas mal traçadas.
Em novembro, risos frouxos retornam à minha bochecha;
Abandono as dores, faço pouco caso das queixas
Um brilho acanhado se abriga no meu olhar,
Acompanhado d'uma esperança boa, me pedindo para ficar.
E se ninguém dissesse, eu saberia que é dezembro:
Uma sensação agridoce satura o ar.
O vento passa e carrega o ano inteiro,
E me vejo, enfim, livre para respirar.
Avisto papel e caneta sob a mesa;
A tentação das promessas se faz presente.
Deixo-me levar por essa correnteza,
Gritando por Deus que será diferente!
Algo me diz que este ano reserva o melhor
Encaro minhas cicatrizes com mais lucidez.
Ontem era Carnaval, e hoje, vejam só!
Já é primeiro de janeiro outra vez.
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