Você sente falta de alguém mas, ao mesmo tempo, não tem vontade de reatar o laço que tinha com essa pessoa?
Não necessariamente porque essa pessoa lhe fez algum mal ou porque vocês tiveram uma briga feia. Eu me refiro aquela pessoa que foi muito presente em algum ponto da sua vida, mas, por algum motivo, hoje não é mais. Seja por um desentendimento, por uma distância física, por incompatibilidade de estilos de vida ou por infortúnios do destino. É aquela pessoa que fez parte do seu passado, e ficou por lá. E não há mágoas ou ressentimentos, você já se acostumou e aceitou, sequer tem vontade de se reaproximar dela. Mas, às vezes, você se pega pensando nela e seu coração se inunda com um sentimento efêmero e difícil de explicar. Afinal, mas que falta é esta que sentimos vez ou outra!?
Eu não acho que sejam só lapsos de nostalgia. Eu estive refletindo muito esses dias e cheguei a conclusão de que existe um tipo muito peculiar de saudade. Não se trata da saudade apertada que sentimos por alguém que foi morar longe, nem da saudade constante que sentimos por um amigo cujos horários não batem com os nossos, tampouco da saudade irreparável de quando perdemos alguém que amamos. Trata-se de uma saudade sútil, você quase não repara nela, mas ela existe e está ali, latente. E uma vez distraído o suficiente, talvez atraído por um gatilho ou outro, suas sinapses percorrem as esquinas mais ermas do seu subconsciente e você simplesmente lembra que aquela pessoa existe - ou melhor, você lembra que aquela pessoa existiu na sua vida. Então, por alguns instantes, você se permite pensar nela. Você se lembra das piadas, das risadas, dos momentos bons e também dos ruins. Você se lembra como era estar com ela. E se pergunta: será que ela também se recorda disso tudo, mesmo que de vez em quando? Bom, você se lembra. Em momentos assim, na verdade, você se lembra que se lembra.
De repente, você está perdido em um vórtice de memórias e, por um instante raro, você é arrebatado por uma nostalgia intensa. Você se lembra vividamente de como você se sentia com aquela pessoa. E é um sentimento tão presente, tão real, que parece que você está experimentando-o pela primeira vez. Como uma memória pode soar como uma sensação tão inédita? É como o primeiro gole de uma bebida muito forte. Tudo retorna a você em cascatas de lembranças que têm o poder de te arrancar um sorriso singelo, uma feição de contemplação ou, até mesmo, marejar seus olhos com lágrimas ralas cujo significado você não entende. Até aqui, isso se parece muito com os outros tipos de saudade. Mas ao invés de mandar mensagem para a pessoa (ou ao menos ter vontade de fazê-lo) - nos casos de saudades apertadas e constantes, ou de lembrar que o luto sempre será uma dor em sua vida - nos casos de saudades irreparáveis; o que vem a seguir é totalmente contraintuitivo. Após beber dessa fonte de lembranças, seu paladar se impregna com um sabor agridoce e você continua sua vida com indiferença aquela pessoa. Simplesmente... passa.
Você continua com seus afazeres, como se nada tivesse acontecido. E passará meses, talvez anos, até que essa pessoa passeie pela sua mente de novo. É uma saudade íntima que vai embora da mesma forma que chega: de repente e depressa. Não, você não sente que precisa falar ou ver aquela pessoa de novo, sequer parece se importar com os desdobramentos de sua vida. Você não a deseja mal e se, por acaso, você ficar sabendo de alguma conquista dela, seu coração brindará sozinho, mas você não vai procurá-la, nem vai puxar conversa, nem vai tentar uma reaproximação. Não por orgulho ou ego, você simplesmente não tem vontade de fazê-lo. Aquela pessoa ficou arranjada e bem guardada no seu passado e só te faz sentido naquela época. Em um primeiro momento, isso pode até parecer frio, egoísta ou mesquinho. Mas eu não acho que seja o caso. Todos nós estamos sujeitos a sermos pedaços importantes na história de alguém e, às vezes, eis tudo o que somos: meros pedaços de um quebra-cabeça muito maior. Não cabe a nós montá-lo.
Então, eu cheguei a conclusão de que essa saudade é, de fato, delicada, sendo necessária certa atenção para senti-la. Ela é passageira como uma brisa, mas tem a força de uma ventania. Ela nos arremessa para outra época de nossas vidas e nos faz lembrar de um pedaço nosso que foi arrancado de outro alguém. A verdade é que nós guardamos algo de todas as pessoas que passam por nós. E, às vezes, elas só passam. Não ficam. Tornam-se nossos conhecidos. E não é de um jeito triste ou rancoroso. É só a vida acontecendo.
No final das contas, eu acho que você não sente falta daquela pessoa de verdade. Pelo contrário: você sente a parte dela que ficou guardada em você.
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