sexta-feira, 5 de novembro de 2021

"grande!"

Eu estive ilhada em meus pensamentos
Aprisionada em antigos tormentos
Percorrendo caminhos que jamais me levaram a canto algum 
Tantos planos abandonados
Esboços tortos e rasurados
De sonhos mortos um por um

As doces memórias de uma vida que nunca aconteceu
Inflamam e queimam as feridas que a vida real me deu
E por tudo que eu abandonei pela estrada, o meu peito ainda arde
Todas as portas estão trancadas, em todos os relógios já é tarde

Quando fecho os olhos, minha mente se abre como um antigo relicário
Mergulho em mim mesma e viajo através do calendário
De repente, é este mesmo dia, só que antes
Numa noite como esta, mas distante
Antiga eu mais nova, cá estamos nós, compartilhando o mesmo instante, disputando a mesma voz

Desenhando casinhas e nuvens, misturando giz de cera
Começando a comer o prato quente pelas beiras
A glória de dias mais simples, adoráveis sextas-feiras
Pendurada de cabeça para baixo nos galhos frágeis da goiabeira

Hoje, não há giz que devolva cor ao meu céu
Quando todos os dias são iguais, não há mais ânsia por finais de semana
Coleciono farelos de comidas frias ao lado da cama
Na goiabeira não há mais balanço, mas uma forca nela há...
E estou pendurada pelo pescoço com os pés soltos correndo no ar

Antiga eu mais nova, 
E esta culpa que me assola? 
Não consigo olhar em teus olhos, tua inocência me apavora
Como eu conto a esta doce menina
Sobre a nossa inexorável sina
Eu nos desfiz em destroços, me acabei em ruínas

Eu deveria te proteger, mas fiz do teu olhar uma paisagem triste
Vislumbra agora um futuro que não mais existe
A criança que eu fui não merece ser o adulto que eu me tornei
Talvez por isso eu a perdi, pouco a pouco eu a abandonei
Mas ela foi a última coisa que eu vi
E foi o que fez, pela última vez, meu coração sorrir
Quando meus pés finalmente pararam de se contorcer
Me lembrei da piada que eu fazia quando me perguntavam
"O que você vai ser quando crescer?"








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