domingo, 3 de outubro de 2021

Dívida Vitalícia

Volta e meia (ou toda hora)
Eu me levo a pensar 
O que tu fazes por agora?
Não me canso de imaginar
Há tanto tempo foste embora
Mas é como se nunca tivesse ido
Pudera eu no tempo voltar
E teu coração não ter partido
Quiseras tu me perdoar
Algum dia, 
meu querido?
Quimera minha é pensar
Que eu te mereça condoído
Era tão difícil acreditar
Que dói em mim o que fiz contigo?

Uma dúzia de palavras formam um nó grosso em minha garganta
Cartas, fax, telefones -  tu não respondes, não adianta

Me sentenciou para sempre a este mar de indiferença 
E nele eu me afogo incontáveis vezes
Não ter seu perdão é como morrer de fome
Sentir seu desprezo é como morrer de sede

Então me agarro à doce crença 
de que talvez eu ainda passeie
por dentro da tua mente
Não todo dia,
com certeza não sempre
Mas, talvez, eu imagino
Quando você escuta aquele sino
Da igreja que profanamos
Éramos apenas pobres meninos
Jovens, loucos e insanos

- Eu estive aqui com ela, mas já faz tantos anos...

Apenas um borrão, eu suponho
Uma mancha incerta 
Quase sem forma
Nunca esperei grande coisa da tua memória
Mas eu me forço a acreditar
Que de vez em quando eu tenho o meu lugar
Em alguma esquina erma do seu subconsciente
Entre figuras enigmáticas, ruídos estridentes
Talvez ainda te toque nas fantasias mais ardentes
Ou talvez eu figure em sonhos estranhos
Aquela face sem nome, aquela voz sem dono
Você acorda assustado
Perde o sono

- Ela está na minha mente mas deve ser engano.

A ânsia de querer ouvir tua voz me tortura e me consome
E eu me convenço a acreditar que tu ainda chama por meu nome
Nem que seja para se referenciar à outra pessoa, uma chará
E, sem ao menos perceber, voltará a pronunciar
E ao passo que as sílabas cruzam teus lábios, tuas sinapse pecorrem os espaços
Que te levam de volta a mim

- Como um nome pôde te desenterrar de emaranhados confins?

E, em algum momento no futuro,
Menos ferido e mais maduro
Ao arrumar aquele velho baú
Encontrará aquela foto minha
com aquele lindo vestido azul
E, talvez, já com menos raiva
Me conceda uma grande dádiva
E me permita ficar
Em uma caixa empoeirada
Entre quinquilarias quebradas
Com trocentas outras tralhas
Que por algum motivo incerto
Você não consegue se livrar

- Pra que jogar no lixo?
Uma lembrança não pode me assombrar.

E um dia
Já muito velho
Você vai esquecer totalmente de mim
Não por despeito ou desafeto, mas por que o Alzheimer quis assim
E eu vou poder aparecer na tua frente
Sem medo da ordem restritiva 
Mesmo acaso lembre subitamente, estará muito fraco para chamar a polícia
Quando no banco do asilo ao teu lado eu me sentar
Eu não sei bem em que pé de demência eu vou estar
Mas hei de me perder em teus olhos de novo
E quem sabe eu consigo olhar bem lá no fundo
e encontre os mesmo olhos que um dia  docemente me fitaram
Não esses que hoje me amaldiçoam
Eu quero aqueles que um dia me amaram

A tua mente tenta resolver este quebra-cabeça
E te força a encaixar meu rosto em algum que você conheça
Com o semblante confuso e a voz trêmula, pergunta
Antes que esqueça:

- Eu te conheço de algum lugar? 

E as palavras que me sufocaram a vida inteira
finalmente encontrarão o seu lugar.

- Por favorMe desculpa. Foi minha culpa. Eu nunca quis te machucar. 






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